Livros retomam utopia de Lina Bo Bardi
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terça-feira, 07 de dezembro de 1999
Por Jotabê Medeiros 
São Paulo, 07 (AE) - Serão lançados nesta quarta-feira, às 20 horas, na 4.ª Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, dois livros que trazem à baila a arquitetura de Lina Bo Bardi (1914-1992), a autora dos projetos do Museu de Arte de São Paulo (Masp) e do Sesc Pompéia. Os dois projetos destacados pelas publicações não são os mais festejados da arquiteta, nem os mais conhecidos do grande público. Mas têm importância crucial na sua obra. A Casa de Vidro do Morumbi foi o projeto moderno que ela fez para o seu abrigo; serviu-lhe de casa por mais de 40 anos.
Mas era a Igreja do Espírito Santo do Cerrado, em Uberlândia, que balançava o coração modernista de Lina Bo Bardi. "Pode ser que a grande obra seja a capelinha miserável de Uberlândia", ela disse no ano de sua morte. "Foi feita sem dinheiro, com os padres franciscanos e prostitutas; o Masp é menos importante do que aquilo."
A igreja foi projetada em 1975, quando os frades franciscanos Egydio Parisi e Fulvio Sabia pediram a Lina um desenho. Eles tinham um terreno no bairro Jaraguá e queriam aproveitá-lo para a construção de uma capela. De 1975 a 1981, Lina e seus dois principais assistentes, André Vainer e Marcelo Ferraz, iam com frequência a Uberlândia para pesquisas e encontros com a comunidade - peça-chave na construção.
"O que houve de mais importante na construção da igreja foi a possibilidade de um trabalho conjunto entre arquiteto e mão-de-obra", escreveu Lina. "Foi construída por crianças, mulheres, pais de família em pleno cerrado, com materiais pobres recebidos de presente, tudo dado - não no sentido paternalista, mas com astúcia de chegar-se a coisas com meios simples."
Lina estava em pleno embate para achar soluções nacionais e ao mesmo tempo cosmopolitas para a arquitetura popular. Fez a igreja em formas curvas com tijolo comum, sem reboco, assentado com barro e estrutura de madeira (aroeira). Além da capela, fez a casa das freiras e um galpão aberto, semelhante a uma oca, para evangelização. Ao lado, uma creche.
"Nossa experiência não é a de uma elite folclórica, mas um teste de viabilidade tendo em vista a possibilidade de uma produção habitacional ao alcance do povo e realizada com a colaboração desse mesmo povo", escreveu a arquiteta, em texto reproduzido no livro organizado pela portuguesa Blau Editorial e pelo Instituto Lina Bo e Pietro M. Bardi.
Tombada pelo patrimônio histórico, a igreja de Lina Bo Bardi é uma espécie de antevisão na arquitetura religiosa tradicional - ao mesmo tempo que preserva a noção do sagrado. É compreensível o orgulho que tinha da obra. O livro resgata maquetes e etapas da construção. "Só mesmo um grande arquiteto e com larga experiência poderia chegar em sua maturidade a uma forma tão pura", disse Vainer. "Sua estrutura é aparentemente simples, mas geometricamente muito complicada e, para resolvê-la
foi necessário construir uma maquete que permitisse melhor pensá-la", afirmou.
Casa de Vidro - A residência dos Bardis foi erguida em 1951. O cenário, até hoje, é deslumbrante: mata nativa brasileira que sobrou da reserva da antiga Fazenda de Chá Muller Carioba. Nos bons tempos, tinha de tudo lá: jaguatiricas, preás, saguis, preguiças. Hoje sobraram os pássaros e a mata, mantida preservada e bem cuidada pelos Bardis.
O cálculo da estrutura foi feito pelo engenheiro Tullio Stucchi. A estrutura vertical foi feita de tubos e a horizontal de concreto armado. Max Bill a achou "trs elegant" e Saul Steinberg (que foi hóspede lá quando de sua exposição no Masp, em 52) disse que era "uma casa poética".
A casa foi o primeiro projeto de Lina e está tombada pelo Condephaat. Na Itália, ela trabalhara como ilustradora de jornais e revistas e como editora (foi publisher da revista "Domus", entre 42 e 43). "Durante a guerra só se destruía", ela dizia, para justificar porque não construíra antes.
Marcelo Ferraz considera que é um edifício que concentra as lições do modernismo vigente naquela época, fortemente influenciado por Mies Van der Rohe. Mas também abrasileirado e feminino, constata o arquiteto. A casa dos Bardis hospedou ou recebeu gente como Calder, John Cage, Aldo van Eyck, Roberto Rosselini e Gláuber Rocha - um dos amigos próximos de Lina, quando de sua passagem pela Bahia -, entre outros. Dentro, os Bardis guardam objetos que remontam mais de 50 anos de convivência com a arte brasileira, como velhos fuzis de jagunços e móveis de Le Corbusier.
O que a Casa de Vidro oferece de mais surpreendente, à primeira visita, é sua entronização na natureza. Fruto da mais alta sofisticação, ela se debruça na colina como se se curvasse à mata e seu esplendor. Como a Casa da Cascata (Fallingwater), obra-prima de Frank Lloyd Wright.
A casa também trai muito da sensação de Lina - européia sofisticada - e do jeito que ela capitulou de amor pela terra brasileira. "Quando cheguei ao Brasil, fiquei atordoada", disse. "Era um pessoal desaforado, ordinário, maravilhoso; reencontrei aqui as esperanças das noites de guerra; estava feliz e aqui não havia ruínas." Tudo estava por construir, ao contrário da Europa que deixara para trás.
"Moderna dos anos 50, a casa continua assim nos anos 90 e, seguramente, seguirá moderna do século 21 em diante", afirmou Ferraz. "Talvez toda arquitetura devesse ser assim: moderna quando feita e no futuro; útil, bela e cheia de vida." Após a morte de Pietro, a irmã de Lina, Graziella Valentinetti, declarou que gostaria de ver a residência transformada num museu. Na parte dos fundos, num galpão construído por Lina - notem bem: não é um galpão vulgar, mas um galpão com a grife Lina Bo Bardi - funciona o Instituto Lina Bo e Pietro Maria Bardi, dirigido por Marcelo Ferraz. Serviço - Igreja do Espírito Santo do Cerrado. De Lina Bo Bardi. 50 págs. R$ 10,00. Ed. Blau. Amanhã, às 19 horas, lançamento na 4.ª Bienal Internacional de Arquitetura. Ingresso: R$ 10,00. Pavilhão da Bienal - Livraria. Avenida Pedro álvares Cabral, s/n.º, portão 3 do Parque do Ibirapuera, tel. 574-5922


