Livros no canteiro de obras
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terça-feira, 22 de junho de 2010
Adriana Ito<br>Reportagem Local 
''Era ele que erguia casas/ Onde antes só havia chão./ Como um pássaro sem asas/ Ele subia com as asas/ Que lhe brotavam da mão.'' Assim começa o poema ''Operário em Construção'', de Vinícius de Moraes, que mostra um trabalhador sendo construído através de suas ideias e ideais.
No poema, o homem adquire força através de sua razão. Assim também o Plantão Sorriso mostrou, em uma apresentação no canteiro de obras do edifício Brisas Igapó, na Gleba Palhano, que as dezenas de operários ali presentes podem crescer através da leitura. A apresentação, ocorrida na terça-feira, foi promovida pelo projeto ''Clube da Leitura'', que a construtora A. Yoshii mantém em três obras.
Em cada canteiro, uma caixa com cerca de 50 livros e revistas é disponibilizada para os funcionários, que desta forma têm acesso a obras de literatura, auto-ajuda, livros técnicos e outros conteúdos sem nem sair do trabalho. Periodicamente, os exemplares são trocados por outros, como forma de diversificar o acervo oferecido.
Segundo Adriana Castro dos Santos, responsável pelo projeto, o objetivo da iniciativa é simplesmente criar o hábito de leitura nos operários. Porque ela sabe que as consequências dessa mudança vão longe. ''O hábito de ler, mesmo que uma embalagem, um jornal, já faz a diferença em relação a quem apenas executa as coisas e não lê. O raciocínio se desenvolve e os benefícios se refletem não só no trabalho, mas na vida, porque eles crescem como pessoas'', argumenta.
A princípio, o projeto tem atraído mais quem já nutria o gosto pela leitura. Gente como o carpinteiro Adenir Sebastião dos Santos, que sempre gostou mais de português que de matemática. ''Sempre gostei de ler. Distrai a gente no momento de folga'', comenta, acrescentando que acabou de ler sobre uma travessia do Mar Vermelho. Ou o servente Israel Dorival de Carvalho, que gosta de aprender coisas novas. ''É bom porque você ocupa seu tempo, em vez de jogar palavras fora. Lendo, você não perturba ninguém, e ainda adquire conhecimento''.
Mas, ao final da apresentação, uma certa empolgação - ainda que logo distraída por uma partida de baralho - mostrou que a iniciativa aos poucos tem cativado novos leitores. ''Com um incentivo como esses, a gente fica com vontade de ler mais. Eu leio muito pouco, mas é capaz de, se der um tempinho, pegar um livro também'', reconhece o contra-mestre Adriano Martins Moreira.
E assim, tijolo a tijolo os operários vão descobrindo que, junto com os altos edifícios que erguem, eles também estão em construção. ''Tudo o que aprimora o conhecimento eu vou atrás'', afirma Jurandir de Paula Mota, dando bom exemplo.
E, para quem ainda não se convenceu, vale o conselho do pedreiro Francisco Henrique da Purificação: ''Ler é bom para não tropeçar nas palavras e ter boas respostas, porque você fica informado. Muitas vezes as pessoas não têm respostas para certas perguntas porque não leem, aí também não têm argumento. É lendo que você percebe que, se se esforçar, você chega lá.''


