LIVROS Jimmy Carter, um depoimento de fé
PUBLICAÇÃO
sábado, 14 de dezembro de 2002
Estelio Feldman<br> Reprotagem Local 
Caso tivesse encerrado sua carreira pública logo após ter terminado seu mandato como presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter seria, hoje, pouco lembrado. Não foi um presidente dos piores, merecendo destaque sua intervenção que possibilitou os acordos de Camp David, entre israelenses e palestinos. Ocorre que Carter foi eleito para a Casa Branca em um momento confuso da História norte-americana. O país vivia ainda o trauma da renúncia de Richard Nixon, em meio ao escândalo de Watergate. Muitos assinalam que foi a situação complicada da época que permitiu a Carter chegar ao principal posto político do mundo, em 1976. Derrotado, em 1980, em sua tentativa de reeleição, para Ronald Reagan, voltou para a Geórgia, sua terra natal e poderia ter permanecido quase incógnito pelo resto da vida, amargando a derrota eleitoral, algo sempre incômodo para um político.
Entretanto, foi precisamente depois de deixar a presidência que Jimmy Carter ganhou o mundo. Fundou o Carter Center, um instituto destinado a promover a ''resolução de crises'', além de defender os direitos humanos. E iniciou uma intensa carreira, que o levou a vários países do mundo, como um pacificador ativo, homem disposto a atuar de modo concreto em benefício da humanidade.
Exatamente por sua intensa atividade pelo mundo, visando unir os povos, é que Carter acabou recebendo, com justiça, o Nobel da Paz de 2002, prêmio entregue na última terça-feira, o coroamento de um trabalho fantástico, reconhecido pelo mundo. O pronunciamento do presidente do Comitê Nobel, Gunnar Berge, ao entregar o prêmio, é significativo: ''É provável que Jimmy Carter não passe para a História norte-americana como o presidente mais eficaz, mas é, sem dúvida, o melhor ex-presidente que o país já teve'', disse Berge.
Vida realmente curiosa a deste homem que revela, em seu mais recente livro, ''Memórias espirituais'' o segredo de uma carreira que poderia ter terminado melancolicamente com a derrota na pugna pela reeleição. A força da oração, a presença da fé, a coragem de reconhecer a importância da fonte divina na vida, tais os elementos revelados, de modo singelo e profundo, por Carter e que, sem dúvida, forjaram o grande homem que o mundo, hoje, reconhece e proclama como um dos seres de boa vontade que buscam a paz na Terra entre todos os povos.
Ler o livro de Jimmy Carter é penetrar no íntimo de um ser humano que encontrou na fé a sustentação para os maiores ideais e que os transmite de modo tranquilo e seguro. ''Jimmy Carter, Memórias espirituais'' representa, assim, uma oportunidade para mergulhar no mais profundo de um ser que tendo atingido os mais elevados píncaros do reconhecimento mundial, permanece o homem simples que se ampara na fé que, em seu caso, realmente move montanhas.
O livro, com 240 páginas, pode ser encontrado nas livrarias e custa R$ 29,00.
Trechos do livro
Este é um livro sobre os valores e as experiências que moldaram minha vida e sobre como as crenças religiosas que herdei se transformaram em uma fé viva. Aguardei muito tempo antes de escrever estas memórias, pois religião é um assunto privado e minha fé já foi objeto de muita especulação pública. Porém, acredito que meu relacionamento íntimo com Deus é algo que tenho em comum com muitos cristãos, das mais diferentes tradições.
- - -
Ao terminar de escrever este livro, fiquei um tanto surpreso quando percebi que ele gira basicamente em torno do amor o amor possível entre pessoas intimamente ligadas, entre estranhos aliados por um sonho ou uma fé comuns, e até entre pessoas que começam se desprezando, mas acabam encontrando uma forma de ver a imagem de Deus na humanidade um do outro.
- - -
Muitas vezes já me perguntaram se houve muitos conflitos graves entre minhas crenças religiosas e meus deveres como político eleito. Na verdade, em poucas ocasiões me senti dividido entre minha fé e a obrigação de cumprir o juramento de ''preservar, proteger e defender a Constituição dos Estados Unidos''. Provavelmente, não há uma grande incompatibilidade entre os ideais patrióticos americanos e os valores judaico-cristãos. Justiça, oportunidades iguais, direitos humanos, liberdade, democracia e verdade são o tipo de coisas que foram ditas por Thomas Jefferson e outros nos primórdios do nosso país e ainda hoje queremos preservá-las.
- - -
Precisamos perceber que boa parte do nosso sofrimento é resultado de nossas próprias ações. (...) Há um consenso geral de que o alcoolismo e a dependência de drogas são doenças, mas com uma combinação de força de vontade, fé em Deus e o apoio dos outros é possível corrigi-las ou curá-las. Tive provas disso ao acompanhar as experiências do meu irmão Billy que se tornou um alcoolátra aparentemente irrecuperável na época em que ocupei a presidência. Mas, 10 anos antes de sua morte, Billy decidiu, por si mesmo, combater o vicio, encorajado pela mulher, Sibyl. Jamais voltou a beber, reconciliou-se com a família e viveu uma vida plena até o final. (...) É claro que precisamos enfrenar com decisão os problemas que nos trazem preocupações. O Novo Testamento nos recomenda seguir em frente e encarar esses desafios, mas sempre pensando firmemente no consolo singelo, puro e abrangente que podemos extrair da vida e dos ensinamentos de Jesus.
- - -
A separação entre Igreja e Estado não apenas protege a religião das intromissões do Governo. Também traz vantagens positivas, encorajando os americanos a apoiar centenas de denominações religiosas variadas e ativas, adorando a Deus em igrejas, sinagogas, mesquitas e templos de todo tamanho e tipo.


