Livros infantis tratam de educação e assédio sexual

Situações metafóricas são usadas nas narrativas que tratam de temas importantes e delicados

Walter Porto/ Folhapress
Walter Porto/ Folhapress

São Paulo - A escritora Penélope Martins queria que a protagonista de seu livro "Minha Vida Não É Cor de Rosa" passasse pelas experiências habituais das adolescentes. A descoberta da autonomia, o primeiro namorado, a mudança de escola - o primeiro assédio.

Ainda nas primeiras páginas do livro, a garota de 14 anos é abordada por um homem que, dentro de um carro, finge que vai pedir informação e mostra a ela suas partes íntimas.



"Na primeira vez em que fui vítima desse tipo de situação, eu tinha uns nove anos", diz a autora. "E, se converso sobre esse tema com qualquer grupo, metade das mulheres levanta a mão para dizer 'eu também, eu também'."


Vários autores utilizam a literatura para alertar e educar sobre assédio e abuso sexual na infância
Vários autores utilizam a literatura para alertar e educar sobre assédio e abuso sexual na infância | iStock
 


O livro, que foi premiado pela Biblioteca Nacional no ano passado, é um dos que abraçam o desafio de falar sobre assédio sexual a um público jovem, em um país onde, a cada 15 minutos, uma criança ou adolescente é vítima de violência sexual, segundo dados da Childhood Brasil.

É uma tendência que vem com o avanço do movimento MeToo - vale lembrar que a expressão surgiu numa corrente que buscava escancarar como o abuso é recorrente na vida das mulheres desde a infância e, muitas vezes, fica encoberto em silêncio.


Enquanto a obra de Martins é direcionada a adolescentes, há outras que buscam abordar a questão para crianças. Um deles é "Leila", do escritor Tino Freitas e da ilustradora Thais Beltrame e que teve colaboração de Elvira Vigna nos primeiros estágios de concepção.

Na fábula, a baleia que dá nome ao livro vai contente à praia quando é importunada pelo polvo Barão, que, sem permissão, mexe em seu biquíni e acaba cortando o longo cabelo dela.


Freitas diz que buscou uma violência para a criança que não fosse explicitamente sexual. "Cortar o cabelo sem que se queira é uma agressão enorme. Se eu falo de abuso de forma clara, sem a metáfora, o que pode acontecer é a criança se sentir mal, com a realidade gritando no ouvido, ou dizer 'isso não me interessa, não me aconteceu'."

A figura da baleia cabeluda leva a uma identificação, mesmo que seja pela curiosidade. E o reino da fantasia permite abordar assuntos duros com segurança, em uma estrutura que emula o poder milenar dos contos de fadas.

No desenrolar do conto, a baleia Leila - uma referência a Leila Diniz- passa por um período de silêncio longo e pesado. Depois de se reerguer, ao encontrar de novo o abusador, ela grita bem alto que não permite aquele contato. "Eu não queria aquele beijo. Eu não gosto da sua companhia. Ninguém pode me tocar contra a minha vontade."


Andrea Taubman foi por caminho semelhante em "Não Me Toca, Seu Boboca!". No livro, a coelha Ritoca se apresenta dizendo que vai contar uma história "meio difícil de entender, muito difícil de falar".

Então conta sobre o Tio Pipoca, que rondava o parquinho onde ela brincava com os amigos e, um dia, chamou a todos para vir a sua casa brincar. Quando ele tenta pegar no seu corpo, ela se alarma -"se for de um jeito suspeito, ninguém deve tocar na gente!"- e berra a frase que dá nome ao livro.

Taubman conta que levou anos lapidando a história, incorporando conteúdo informativo e sugestões de especialistas em proteção à criança, para se blindar ao máximo de equívocos conceituais.

Na primeira versão do livro, por exemplo, a mãe de Ritoca era a grande heroína protetora. Então a autora aprendeu que uma porcentagem das agressões é perpetrada pelas mães -14%, segundo a Childhood Brasil, enquanto os padrastos representam 21%, e os pais, 19%- e que às vezes elas são coniventes com a exploração da criança.


Então decidiu se fiar ao que chama "tripé da autoproteção": gritar, correr, contar. O livro ganhou páginas que se aproximam da cartilha, mais do mundo da educação do que propriamente da literatura, com exemplos de situações a evitar. "Tem muita gente com boas intenções, mas sem o aprofundamento correto, você não consegue fazer uma obra que seja adequada à complexidade da questão", afirma a escritora.

Não dá para imaginar, contudo, que um livro funcione como uma vacina. É raso enxergar a literatura de maneira puramente utilitária. "Nada garante que um livro atinja na criança o objetivo que os adultos esperam", diz Ilan Brenman, escritor e doutor em educação. "Pode ser que uma obra que fale sobre coisas completamente diferentes tenha esse efeito [de detonar uma discussão sobre assédio]. Essa amplitude é a beleza da literatura."




Penélope Martins faz coro à ideia de que um livro não serve para solucionar nenhum assunto, mas diz que discutir ali um tema tabu como o assédio pode ajudar a tirar isso de baixo do tapete -onde ele estava durante toda a adolescência da escritora de 46 anos.

Nesse sentido, é importante a mediação da leitura por adultos que estejam de fato preparados para ouvir o que as crianças querem discutir. E que tenham a noção de que, no mais das vezes, quem pratica a violência sexual contra elas é alguém conhecido.

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