Mônica Rodrigues da Costa
Agência Folha
Há cinco histórias de Clarice Lispector para ler em companhia de crianças. As obras são ilustradas por Mariana Massarani e Flor Opazo. ‘‘A Vida Íntima de Laura’’, ‘‘Quase de Verdade’’, ‘‘A Mulher que Matou os Peixes’’ e ‘‘O Mistério do Coelho Pensante’’, já estão nas livrarias. O quinto, ‘‘Como Nasceram as Estrelas’’, chega com o ano 2000.
Nos livros, o acento é a interrogação. Clarice interrompe histórias para instruir o leitor sobre a arte de pensar, perceber, escrever, tão intimamente relacionada nesses contos para crianças. Em ‘‘A Mulher que Matou os Peixes’’, as histórias multiplicam-se e se tornam ‘‘causos’’, velozes como os pensamentos que acedem à mente. ‘‘De cavalo eu não tenho nenhuma história para contar, e é uma pena, porque cavalo é um animal de grande beleza.’’ O narrador diz que ‘‘não mente para crianças’’ e pede que elas julguem sua ação de ter matado dois peixes que pertenciam ao filho, ‘‘como a mãe ou a empregada esquecem uma panela no fogo e, quando vão ver, já se queimou toda a comida - eu estava também ocupada escrevendo história’’. A certa altura, pergunta o narrador: ‘‘Se eu jurar por Deus que tudo o que contei neste livro é verdade, vocês acreditam?’’ Brincadeira da autora, em camadas da narrativa, da semântica à sintática ou estilística, mostra ao leitor a ‘‘desconstrução’’ do enredo.
Sobre o espanto em se ter de engolir ou não o caroço da jabuticaba, diz em ‘‘Quase de Verdade’’: ‘‘Aconteceu uma coisa: as aves ficaram com o caroço das jabuticabas na boca e não sabiam o que fazer. Perguntaram então a Odissea e a Ovidio: - Devemos engolir ou não engolir o caroço? Ovidio e Odissea ficaram bobos: não sabiam o que responder. Pensaram em pedir ajuda a Oxalá, mas acharam que já tinham pedido muito e que tinham de se arranjar sozinhos.’’ Ao mesmo tempo em que rompe a linearidade do discurso, a narrativa de ‘‘Quase de Verdade’’ (como as outras) retoma a oralidade dos ‘‘causos’’ que introduz na trama principal. Lispector é paradigma para a prosa contemporânea. O romance, a novela, os contos de fada, as fábulas entram em crise diante de um contar peculiar como o seu.
Em ‘‘A Vida Íntima de Laura’’, o narrador vai contar a chegada de um ladrão no galinheiro: ‘‘Uma bela noite... Bela coisa nenhuma! Porque foi terrível. Um ladrão de galinhas tentou roubar Laura no escuro do quintal.’’
Faz falta uma escritora assim. Esta passagem de ‘‘Quase de Verdade’’ dá saudade de Clarice: ‘‘Assim corria a vida. Mansa, mansa. Os homens homenzavam, as mulheres mulherizavam, os meninos e meninas meninizavam, os ventos ventavam, (...) a história vai historijar.’’
Livros: Quase de Verdade, A Vida Íntima de Laura, A Mulher Que Matou os Peixes, O Mistério do Coelho Pensante
Autora: Clarice Lispector
Lançamento: Editora Rocco
Quanto: R$ 14, cada livro

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