1 – “Dom Quixote de la Mancha”, de Miguel de Cervantes. Embora exista alguma dúvida sobre como o clássico foi concebido, no prólogo da obra o próprio autor garante que inventou seu herói na prisão de Sevilha, onde esteve preso em 1597 por dívidas. Lá, teria começado a escrever seu road movie a cavalo e burro sobre dois tipos bizarros, um alto, magro e meio adoidado, e outro baixo, gordo e mais pé no chão. Há um filme complicado (e inacabado) de Orson Welles e uma ótima versão russa de 1957 de Grigory Kozintsev.

Há um filme complicado (e inacabado) de Orson Welles e uma ótima versão russa de 1957 de Grigory Kozintsev de Dom Quixote
Há um filme complicado (e inacabado) de Orson Welles e uma ótima versão russa de 1957 de Grigory Kozintsev de Dom Quixote | Foto: Reprodução

2 – “Rei Lear” e “Macbeth”, de William Shakespeare. A origem aqui é bem mais obscura. Porque se sabe que sobre o Bardo existem poucos dados comprovados. Há uma tradição biográfica que informa que “Lear” e “Macbeth” foram escritas durante a epidemia da peste de 1603. Com o fechamento dos teatros de Londres, a companhia em que trabalhava como ator, a “King’s Men”, ficou ociosa, tempo que ele aproveitou bem para criar duas de suas peças mais atormentadas. E visitadas pelo cinema com bastante frequência e resultados irregulares. Mas Akira Kurosawa deu conta de ambas com sua majestade de “imperador” do cinema: respectivamente “Ran” e “Trono Manchado de Sangue”.

3 – “Os 120 Dias de Sodoma”, do Marquês de Sade. A vida do Marquês foi um vai e vem de longos confinamentos atrás das grades, levado por suas fantasias libertinas. Preso na Bastilha, o aristocrata francês escreveu esta novela, catálogo de atrocidades, violência e humilhações sexuais. E o fez com letras minúsculas em pequenas folhas, depois juntou num rolo para enganar os carcereiros. Em 1789, alguém resgatou o original das ruínas da prisão. Em 1975, Pasolini adaptou a obra ao cinema, localizando a ação na Itália fascista. O filme leva o fascismo ao paroxismo, numa alegoria de dominação brutal.

"Os 120 Dias de Sodoma”: filme leva o fascismo ao paroxismo, numa alegoria de dominação brutal
"Os 120 Dias de Sodoma”: filme leva o fascismo ao paroxismo, numa alegoria de dominação brutal | Foto: Reprodução

4 – “Minha Luta/Mein Kampf”, de Adolf Hitler. O “golpe da cervejaria” (o putsch de Munique) levou o futuro führer à prisão de Landsberg no verão de 1924. E ali ele redigiu o primeiro volume desta obra que é ao mesmo tempo memórias e manual ideológico. “Mein Kampf” resultou em excelente documentário sueco de 1960, de Erwin Leiser. O filme utiliza material de arquivos secretos de Goebbels, muito filmado pelo próprio.

5 – “Diário”, de Anne Frank. A adolescente alemã, de 13 anos, escreveu um diário durante os dois anos que ficou enclausurada com sua família alemã de origem judaica no sótão de uma casa em Amsterdam, entre 1942 e 1944. Ela manteve seus textos em segredo, somente revelados pelo pai, o único sobrevivente da família. O livro virou um um símbolo poderoso sobre o Holocausto. A versão de Hollywood, de 1959, teve muita repercussão no lançamento, embora não seja um grande filme.

A versão de Hollywood de Anne Frank (1959) teve muita repercussão no lançamento, embora não seja um grande filme
A versão de Hollywood de Anne Frank (1959) teve muita repercussão no lançamento, embora não seja um grande filme | Foto: Reprodução

6 – “Tratactus Logico-Philosophicus”, do vienense Ludwig von Wittgenstein. Sim, possivelmente um dos textos filosóficos mais influentes do século XX foi escrito em um campo de prisioneiros italiano perto de Montecassino, onde Wittgenstein foi mantido durante a Primeira Guerra Mundial. O ambiente pode não ser o melhor, mas o filósofo cresceu na clausura. Ele mesmo, anos antes da guerra, tinha construído uma cabana escondida no fundo de um fiorde norueguês, onde ficava solitário por longas temporadas e até um ano inteiro. Há um longa metragem nipo-britanico de 1993, de viés experimental, “Wittgenstein”. O drama biográfico-histórico foi dirigido pelo polêmico Derek Jarman, com roteiro livremente baseado na vida e no pensamento filosófico de Wittgenstein e vencedor do Teddy Award em Cannes, o principal prêmio LGBT do cinema.

“Wittgenstein":  drama biográfico-histórico foi dirigido pelo polêmico Derek Jarman, com roteiro livremente baseado na vida e no pensamento filosófico de Ludwig von Wittgenstei
“Wittgenstein": drama biográfico-histórico foi dirigido pelo polêmico Derek Jarman, com roteiro livremente baseado na vida e no pensamento filosófico de Ludwig von Wittgenstei | Foto: Reprodução
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