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sábado, 23 de fevereiro de 2002
Os Miseráveis (Primeira Parte) 
Em 1815, era bispo de Digne o Se. Carlos Francisco Bienvenu Myriel, que contava com setenta e cinco anos de idade, e ocupava a cadeira episcopal desde 1806. Embora este pormenor nada tenha com o que narremos, nem por isso é inútil, apesar dos boatos que circularam na época em que tomou posse do governo da diocese. Verdade ou não, o que se diz dos homens, ocupa, por vezes, tanto lugar na sua vida e sobretudo no seu destino como o que eles próprios fazem.
Era o Sr. Myriel filho de um conselheiro do parlamento dAix. Contava-se que seu pai reservando-o para herdeiro do cargo que desempenhava, casara-o aos dezoito ou vinte anos, segundo o costume de certas famílias aristocratas. Myriel tinha presença agradável e, apesar de ser meão de estatura, era elegante e muito espirituoso. A primeira parte de sua vida dedicou-se ao mundo e as suas galanterias. Sobrevindo a revolução, os acontecimentos precipitaram-se, as famílias da aristocracia, expulsas e perseguidas, dispersaram-se. Myriel emigrara para a Itália, onde perdeu a esposa que sucumbiu a uma doença pulmonar. Que se passou então no seu destino? O desabamento da antiga sociedade francesa e os trágicos espetáculos de 93 formaram acaso um conjunto de fatos que nele suscitaram idéias de renúncia e solidão? Teria sido subitamente atingido por algum golpe misterioso e terrível, daqueles que aniquilam, ferindo-o no coração, o homem a quem as catástrofes públicas não conseguiram abalar, roubando-lhe bens e posição? Ninguém soube dizê-lo; tudo que se sabia, é que voltara da Itália, ordenado presbítero.
O Corcunda de Notre Dame
(Livro Primeiro)
Há 348 anos, seis meses e 19 dias, os parisienses despertaram com a bulha de todos os sinos dobrando intensamente, na tríplice muralha da Cidade, da Universidade e da Vila. Contudo, o 6 de janeiro de 1482 não foi um dia de que a História tenha guardado recordação. Nada de notável no acontecimento que punha assim em alvoroço, desde manhã, os sinos e os burgueses de Paris. Não se tratava de um ataque dos picardos ou dos borguinhões, de uma caçada conduzida em procissão, de uma revolta de colegiais na cidade de Lass, de uma estrada de notredit trSs-redouté seigneur, monsieur le roi, nem mesmo de um bom enforcamento de ladrões e de ladras na Justiça de Paris. Não se tratava tampouco da chegada, tão frequentemente no século 15, de alguma embaixada cheia de condecorações e de penachos. Fazia apenas dois dias que a última cavalgada deste gênero, a dos embaixadores flamengos encarregados de concluir o matrimônio entre o delfim e Margarida de Flandres, dera entrada em Paris, com grande aborrecimento do cardeal de Bourbon, que, para agradar ao rei, tivera de fazer boa cara a toda aquela rústica multidão de burgomestres flamengos, e presenteá-los, no seu palácio de Bourbon, com uma moult belle moralité, sotie et farce, enquanto uma chuva que caía a cântaros inundava, em sua porta, as magníficas tapeçarias.
Os trabalhadores do mar
(Primeira Parte)
Sr. Clubin livro primeiro - Elementos de uma má reputação - Palavra Escrita em uma Página Branca
O Christmas (Natal) de 1822... foi notável em Guernesey. Caiu neve naquele dia. Nas ilhas da Mancha, inverno em que há neve é memorável; a neve é um acontecimento.
Naquela manhã de Christmas a estrada que orla o mar de Saint-Pierre-Port ao Vale assemelhava-se a um lençol branco: nevara desde a meia-noite até o romper do dia. Pelas 9 horas, pouco depois de nascer o sol, como não era ainda ocasião de os anglicanos irem à Igreja de Saint Sampson e os wesleyanos à Capela Eldad, o caminho estava quase deserto. Na parte da estrada compreendida entre a primeira volta e a segunda havia apenas três viandantes, um menino, um homem e uma mulher.
Estes três viandantes, caminhando separados uns dos outros, não tinham visivelmente relação alguma entre si. O menino, de cerca de oito anos, parara e olhava para a neve com curiosidade. O homem, seguindo atrás da mulher, uns cem passos, dirigia-se, como ela, para o lado de Saint Sampson.
Era ele moço ainda e parecia ser operário ou marinheiro. Vestia as roupas ordinárias, isto é, uma grossa camisa de pano escuro e uma calça de pernas alcatroadas, o que parecia indicar que, apesar da festa, não iria à igreja. Os grosso sapatos de couro cru e solas tacheadas de ferro deixavam sobre a neve uma marca, que mais se assemelhava a uma fechadura de prisão que ao pé de um homem.


