Quase dez anos após sua morte, Caio Fernando Abreu volta aos holofotes. Desde abril, o escritor vem tendo sua obra relançada pela editora Agir, terá seu livro mais famoso levado para as telas do cinema em 2006 e esteve em cartaz por duas vezes no teatro. Os textos de Caio F. (assim ele assinava cartas para os amigos) foram parar na internet, ganharam várias comunidades no orkut e um verdadeiro escambo de contos passou a acontecer.
A jornalista e artista plástica Paula Dip foi amiga íntima de Caio e agora escreve uma biografia sobre o escritor com base nas cartas e faxes que trocavam. ''Por muitos anos, guardei as cartas que ele me mandava e nem tinha coragem de olhar, era meio dolorido'', conta Paula. A escritora revela ainda que o projeto do livro é justificável por um acordo feito por ambos em tom de brincadeira. ''Tínhamos um pacto de um escrever a biografia do outro.''
O cineasta Guilherme de Almeida Prado conheceu Caio na década de 1980 e chegou a dividir apartamento com o autor durante um ano. Atualmente, finaliza o longa-metragem ''Onde Andará Dulce Veiga?'', baseado num dos livros de maior sucesso do amigo.
''Escrevemos um roteiro antes mesmo de ele fazer o livro, foi um projeto que ficou muitos anos em nossas vidas'', revela Guilherme. O filme teve orçamento de R$ 6 milhões e deve chegar às telas no próximo ano. ''As temáticas de Caio são eternas, não são datadas. Embora tenha muito da década de 1980, tentei fazer o filme do ponto de vista de hoje usando uma perspectiva de época.'' O cineasta faz uma homenagem ao amigo no filme. ''Batizamos um personagem, que não teria nome, de Caio (vivido por Eriberto Leão) para fazê-lo presente na história'', diz. O longa conta com Maitê Proença no papel-título e Carolina Dieckmann interpretando uma cantora lésbica.
Caio era assumidamente gay e alguns de seus textos eram fortemente permeados pela diversidade sexual. O conto ''Aqueles Dois'', publicado em ''Morangos Mofados'', narra de maneira sutil o envolvimento amoroso entre dois amigos. ''Se pensarmos nele como autor homossexual, reduzimos sua obra'', afirma Cássio Scapin, diretor do espetáculo ''Uma Praiazinha de Areia Bem Clara Ali, na Beira da Sanga'', baseado num dos contos do livro ''Os Dragões não Conhecem o Paraíso''. O livro de 1988, se encontra na recém-lançada coletânea ''Caio 3D - O Essencial da Década de 1980'', que traz ainda contos e escritos avulsos inéditos, além de parte da correspondência trocada com parentes e amigos.
No orkut, as quatro maiores comunidades sobre Caio já somam mais de 4.200 membros. Moderador da maior delas, o carioca Egídio La Pasta explica como se dá a interação entre os leitores pela web. ''A comunidade aponta em direções mil. Tem o pessoal dos trechos, que cita os livros, e acontece uma troca interessante.'' No entanto há quem não goste da popularização de um escritor 'alternativo', antes considerado 'maldito'. ''Existe um tópico no fórum que não acha legal Caio estar na moda, diz que as pessoas só citam seus trechos mas não conhecem a obra.'' A troca de contos tornou-se uma constante entre os fãs mais ávidos.
A fluidez multimidiática pela qual a obra do escritor transita pode ser justificada. O jornalista Thiago Soares, autor da tese de mestrado ''A Prosa Videoclíptica de Caio Fernando Abreu'', explica os motivos. ''Caio é atual por falar de solidão, de dramas urbanos, temáticas contemporâneas que podem ser facilmente transportadas para outras mídias. Sua prosa é quase cinematográfica'', afirma. ''A obra dele já foi levada para o teatro, para o cinema, está na internet, só falta a TV ter peito de incorporá-lo à dramaturgia'', diz Breda. ''Talvez não demore muito para isso acontecer. Tenho pensado numa minissérie com os contos dele.''

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