LIVROS - Histórias encantadoras
PUBLICAÇÃO
domingo, 22 de janeiro de 2006
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Dona Salete é uma velhinha complicada, não fala com estranhos, mas conversa com seu cachorro. Julieta é uma menina educada, faz tudo direitinho e adora andar em linha reta, tanto que nem consegue fazer curvas. As duas não se conhecem porque moram em diferentes tipos de casas, pois são muitos os lares que existem no mundo, mas ouvem os mesmos sons e até outros, porque os sons são mais do que aqueles que a gente escuta. O que esses elementos têm em comum? Todos são personagens das divertidas histórias infantis criadas pela escritora carioca Liana Leão, que há 15 anos escolheu Curitiba para morar. Dona de uma produção recorde no segmento, ela começou a escrever para crianças em 2004, influenciada pelas histórias vivenciadas e contadas pelos filhos gêmeos. Desde então já publicou sete livros. Outros dois estão no forno.
A primeira obra da autora, ''O Livro das Casas'' (Editora Cortez, 2004), foi publicado meio por acaso, quando Liana atendeu, na casa de uma amiga, o telefonema de um editor. Mais tarde ela enviou o texto para ele, que logo foi adotado pela Cortez. Em pouco tempo, o livro já tinha sido editado em espanhol e selecionado pelo Ministério da Educação do México para integrar as bibliotecas das escolas mexicanas. Com ilustrações impecáveis assinadas pelo arquiteto curitibano Guilherme Zamoner, o livro fala dos diferentes tipos de casas que as pessoas têm. Desdes as casas de barro, até as casas-útero. O tema serve também como pano de fundo para trabalhar com as crianças a questão social.
''Eu sempre quis saber porque tem gente que mora na rua, isso me inquietava desde criança e por mais que me explicassem que era uma 'questão do governo', nunca compreendi'', conta Liana. Para ela, é uma dúvida que toda criança tem, quando mora ou vê alguém morando na rua. ''As crianças têm vontade de consertar o mundo, mas o adulto consegue matar esse desejo'', diz. Ela resume o tema à maternidade. ''Pode ser ingenuidade da minha parte, mas sempre achei que a violência tem ligação com as casas que não protegem, desde o útero da mãe, que é a nossa primeira casa, até os lares que negligenciam os cuidados com as crianças'', metaforiza.
Depois de ''O Livro das Casas'', Liana publicou, pela mesma editora, ''O Livro dos Sons'', com desenhos do mesmo ilustrador do primeiro livro. A obra, publicada no ano passado, aborda os diferentes tipos de sons, até aqueles que a gente escuta bem baixinho e muitas vezes nem presta atenção. O curioso nessas duas obras, é que dá para perceber o cuidado da autora em acompanhar as ilustrações e casar tão bem o texto e o desenho. ''Eu escrevo como um roteiro e descrevo como quero as ilustrações'', revela.
Foi assim nos livros que se seguiram, como ''O Livro dos Pés'' (Editora Salesiana, 2005), ilustrado por Thaís Linhares, em que Liana, além do texto, mandava para ilustradora, o que ela queria que fosse desenhado. Nos livros seguintes, porém, Liana iniciou uma parceria com a desenhista curitibana Márcia Széliga, que tem marcado suas últimas produções. Desde ''Dona Salete de Copacabana'' (Editora Salesiana, 2005), escrita em conjunto com o marido, o administrador de empresas, Luiz Otávio, até o ótimo ''Julieta de Bicicleta'' (Editora Cortez) e o recente ''Diferentes. Pensando Conceitos e Preconceitos'' (Editora Elementar). Foi identificação na certa.
''Julieta de Bicicleta'' conta a história de uma garotinha que fazia tudo do mesmo jeito, todos os dias, e adorava andar em linha reta. Até o dia em que ganhou uma bicicleta e não conseguia fazer curva alguma com o veículo. A história foi baseada num episódio semelhante vivido por Gigio, filho da escritora. ''Ele não queria fazer curvas porque tinha medo de nos perder de vista. Aproveitei para utilizar essa história no livro, mas com uma pitada de ficção'', conta. Na história, Julieta consegue ultrapassar a sua própria barreira para salvar um amigo que caiu depois da curva. ''Porque a vida é assim. A gente só consegue aprender com o sofrimento'', compara Liana.
E os obstáculos também ensinaram, na vida real, a escritora e a fizeram ter uma vontade ainda maior de se dedicar ao público infantil. Professora de graduação e pós-graduação em Letras, na Universidade Federal do Paraná (UFPR), elas fez várias tentativas de ter filhos, até optar pela fertilização ''in vitro'' e nasceram Gigio e Bibi. ''Ser mãe, muda a vida da gente, a gente fica mais humana e passa a enfrentar as coisas de um jeito diferente''.
Prestar atenção no universo infantil, por exemplo, dá idéias mágicas para Liana. Foi assim com o livro ''Caixinha de Narizes'', ainda inédito e previsto para ser publicado este ano. A história foi uma dúvida que Bibi, filha da escritora, teve depois que a avó fez uma plástica. Surgiu a história de um tucano que não gostava do próprio nariz e quis colocar em si mesmo um nariz de porco, mais arrebitado que o seu. Nasceu o Tuporco. O mesmo aconteceu com outros animais, infelizes com a aparência. Qualquer semelhança com o mundo dos seres humanos, não terá sido mera coincidência, mas sim fruto de muita criatividade.


