LIVROS - Encontro de culturas
PUBLICAÇÃO
domingo, 22 de janeiro de 2006
Ana Paula Nascimento<br> Reportagem Local 
Em 1962, o brasileiro Maurício Crespo, 68 anos, foi convidado pelo Itamaraty para dar aulas de português no Japão. Fascinado pela cultura oriental, não foi difícil para ele permanecer na terra do Sol Nascente. Acabou se casando com uma japonesa, com quem teve dois filhos, e na época mal sabia que um dia viria a dar aulas de português para o imperador Akihito, hoje com 72 anos, que ainda era príncipe, e estava se preparando para uma visita ao Brasil. Isso foi em 1968 e ele se lembra com bom humor do fato inusitado. ''Foi uma experiência única ter dado aula para uma pessoa que nunca teve um problema na vida; que sempre foi educada com o máximo de proteção e cuidados, como se fosse um bibelô. Ele é uma pessoa bastante acessível e lembro, que diferente dos alunos comuns, quando ele errava algum trecho da leitura, repetia o texto desde o início, e não apenas a parte em que errou'', relembrou Crespo, que no Japão é chamado de ''Crespo San'', já que os japoneses não pronunciam o primeiro nome e ''San'' é equivalente ao pronome de tratamento ''senhor'', em português. Em Londrina, fazendo contatos comerciais, Crespo contou um pouco da sua experiência de vida e do seu trabalho.
Atuando como professor permanente da Universidade Nacional de Estudos Estrangeiros de Tóquio, Crespo acabou se interessando profundamente por literatura. Foi dele a iniciativa de fazer a primeira tradução para o japonês de ''Raízes do Brasil'' obra-prima do historiador Sérgio Buarque de Hollanda, que contou com a colaboração de diversos amigos que também atuavam no Japão dentro do departamento luso-brasileiro da universidade. E não demorou para iniciar um trabalho editorial de tradução de livros de diversos países. Montou a Shinseken (palavra que remete à abreviação de 'Instituto Novo Mundo'), editora especializada em livros multilinguísticos e multiculturais. Desde 1980, vem se dedicando a publicar livros ilustrados com histórias folclóricas de diversos países. Com uma equipe especial de ilustradores que inclui profissionais do Japão, Mongólia, China, Taiwan, Filipinas, Tailândia, Índia e Irã , Crespo consegue produzir livros primorosos, com alta qualidade visual dentro do conceito que ele chama de ''ehon'' palavra japonesa que designa tipo de livro ilustrado dentro de um conceito mais vasto de literatura. ''Apesar de ser ilustrado, o livro não é propriamente para crianças; não tinha a princípio o objetivo de criar uma literatura infantil. Eu queria tentar captar a alma de diversos povos, o espírito de cada cultura e por isso decidi pesquisar os contos típicos'', afirmou Crespo.
A pesquisa incluiu viagens a diversos países orientais para conhecer as obras e os profissionais locais. Ele também teve a idéia de promover concursos no Japão de tradução de obras em inglês, que acabou resultando em algumas publicações inovadoras por serem editadas em dialetos japoneses.
Ele também foi responsável por tornar acessível aos japoneses e outros povos lendas brasileiras como a do Saci (''Saci, O Espírito da Selva'') e da Iemanjá (Iemanjá, a Deusa do Mar''), belamente ilustrados com xilogravuras de Marlene Perlinger, que é irmã de Crespo. E uma boa notícia é que as duas obras referidas ganharam licitação recente do Ministério da Educação do México e foram incluídas como leitura obrigatória. Para os brasileiros, em contrapartida, traduções apuradas de contos orientais. De modo geral, os livros são publicados em japonês, inglês, espanhol, português, além de chinês e tagaloki (dialeto filipino). Mais informações pelo site www.shinseken.com.br.


