Imagine-se na pele de Luis Fernando Verissimo, Millôr Fernandes, João Ubaldo Ribeiro, Caetano Veloso ou Arnaldo Jabor. Um dia, você é alvo de uma enxurrada de e-mails desaforados imprecando contra um texto de ''sua'' autoria difundido pela Internet.
Em outra ocasião, você vai a uma festa de amigos e recebe congratulações pela crônica contundente ''de anteontem'', também lida na tela do computador. Ok, críticas ou elogios seriam aceitáveis não fosse por um detalhe: você nunca escreveu tais textos, embora eles estejam circulando livremente pela rede com sua assinatura.
Narrado assim, toscamente, parece brincadeira. Mas os autores citados acima são apenas alguns dos que já passaram por situações constrangedoras semelhantes, como conta a jornalista Cora Rónai no livro ''Caiu na Rede'', que está chegando às prateleiras pela Agir Editora. Expert em informática e Internet, ela escreve uma coluna semanal especializada e edita um suplemento temático no jornal O Globo.
No livro, Cora apresenta alguns dos textos apócrifos mais comentados na web, desvenda as autorias trocadas e em alguns casos raros devolve os créditos a quem de direito. ''Quando as palavras circulavam apenas em impressos, já era difícil desfazer equívocos assim; com a popularização da internet, porém, restabelecer a verdade se tornou praticamente impossível'' assinala ela.
Para Cora, a confusão raras vezes nasce da maldade ou da simples vontade de passar trotes. ''Em sua vasta maioria, os textos são cômicos ou motivacionais, 'licões de vida' o que, sem grandes psicologismos, basta para revelar o que está por trás da falsa atribuição ou do 'esquecimento' do nome do autor: a vontade irrefreável de espalhar conselhos e risadas entre o maior número possível de pessoas, aliada à ignorância e a um senso peculiar do que é direito autoral'' salienta.
Esconder-se atrás de um nome famoso para divulgar seu texto seria apenas uma tentativa para atrair mais leitores, afinal não é muita gente que tem paciência para ler mensagens de teor literário, ainda mais enviada por anônimos. É o que explicaria a imensa quantidade de falsos Verissimos no Brasil. ''Quem resiste ao autor mais amado do País'' questiona a autora.
O filho de Érico, aliás, já estaria mais ou menos conformado com a glória altamante duvidosa de ser o não-autor de maior circulação na rede. Mesmo assim, para evitar novos mal-entendidos, fez um alerta quatro anos atrás em uma de suas crônicas: ''Que fique estabelecido, portanto, que qualquer texto mal escrito, ou bem escrito mas controvertido, ou incoerente, bobo, nada a ver, pretensioso, metido a besta, pseudolírico, pseudoqualquer coisa, pseudopseudo, ou que de alguma forma possa dar cadeia ou problemas com autoridades, goianos ou outro grupos, com a minha assinatura, na internet, ou fora dela, não é meu. Todos os outros inclusive, alguns com outras assinaturas, até prova em contrário são meus''.
João Ubaldo Ribeiro, por sua vez, tomou uma atitude original ao ver o dilúvio de e-mails divulgando ao mundo um texto supostamente seu intitulado ''Precisa-se de matéria-prima para construir um País''. Passou ele mesmo a mandá-lo para os amigos, acompanhado de um bilhete no qual dizia que ''eu não escreveria esse negócio nunca''. E completava: ''Até o detalhe de molhar a mão do guarda é inverídico, porque não tenho carteira e não dirijo mais há uns trinta anos. Mas não posso fazer nada, só posso desmentir a quem me pergunte. E agora você, a quem lhe perguntarem''.
No livro, Cora Rónai resgata a primeira saia-justa envolvendo uma falsa atribuição na Internet. Foi em 1997, quando um texto da colunista Mary Schmich (do jornal norte-americano Herald Tribune) propagou-se como sendo do escritor Kurt Vonnegut. Ironicamente, com o equívoco já estabelecido, ela recebeu centenas de cartas e e-mails de leitores indignados acusando-a de plagiar Vonnegut.
O texto, intitulado ''Filtro Solar'', rodou o mundo com a autoria trocada não poupando sequer a revista Time que o reproduziu como sendo de Vonnegut. Na Áustrália, caiu nas mãos de Baz Luhrman, que decidiu musicá-lo, convencido de que era um Vonnegut autêntico. O diretor de ''Moulin Rouge'' só descobriu a verdade quando escreveu para a agência do autor, interessado em comprar os direitos.
O registro fonográfico virou um CD de sucesso, que chegou ao Brasil num clipe, pela voz de Pedro Bial. Que hoje diz a autora é considerado o verdadeiro autor do texto pelos mais desavisados. Além dos nomes citados, ''Caiu na Rede'' garimpa textos falsos atribuídos a Jorge Luis Borges, Carlos Drummond de Andrade, Gabriel Garcia Márquez, Clarice Lispector, Maiakóvski, Martha Medeiros e outros não menos célebres.
O livro não tem ambições analíticas. Limita-se a rastrear e identificar um fenômemo do mundo virtual. Mas oferece matéria-prima para estimular reflexões sobre plágio, direito autoral e a utilização nem sempre virtuosa da Internet.

Serviço:
- Livro ''Caiu na Rede'', de Cora Rónai. Editora: Agir (telefone. 21/3882-8200). Preço: R$ 24,90 (160 páginas).

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