Enfim, a obra completa de Torquato Neto (1944-1972) foi garimpada. A antologia ''Torquatália'' chega ao público numa edição luxuosa, em dois volumes, recheada de textos inéditos. Organizada pelo crítico literário Paulo Roberto Pires, traz toda a produção criativa do poeta, desde os primeiros versos da adolescência até os últimos escritos de seu diário.
Com a publicação, ficou impossível reduzir a figura do artista a mero coadjuvante do Tropicalismo, como muita gente ainda o vê. Ele, na verdade, foi um dos ideológos do movimento ao lado de Gilberto Gil e Caetano Veloso. E, embora suas canções figurem como clássicos da época, deixou um legado que ultrapassa a virada dos anos 60 para os 70 para ganhar vulto no panorama da cultura brasileira contemporânea.
''Torquatália'', porém, não é o único lançamento editorial a ostentar o nome do poeta na capa nesta temporada. As prateleiras estão recebendo também o ensaio crítico ''A Escritura de Torquato Neto'', de autoria do professor universitário Feliciano Bezerra. Este último passa a limpo o talento plural de Torquato elencando-o entre os ''inventores'' a partir das célebres categorizações de Ezra Pound, que dividiu os poetas entre inventores, mestres e diluidores.
O ensaio é curto, de apenas 74 páginas. Já os dois livros que compõem ''Torquatália'' totalizam 780 páginas ampliando generosamente o material documentado nas duas edições da compilação ''Os Últimos Dias de Paupéria'', publicadas respectivamente em 1973 e 1982 e já esgotadas. Duas décadas se passaram e, de lá para cá, muitas criações desconhecidas vieram à tona garimpadas de arquivos pessoais de amigos, parentes e instituições.
O organizador coletou tudo o que foi possível localizar, tudo o que não se perdeu ou foi destruído (já que ele tocou fogo em grande parte de seu acervo, meses antes de se matar, aos 28 anos de idade, abrindo a torneira de gás no banheiro de seu apartamento). Um dos volumes, intitulado ''Do Lado de Dentro'', inventaria o talento multifacetado do artista compilando poemas inéditos da adolescência (escritos ainda no Piauí entre 1961 e 1962), poemas da fase adulta, letras de canções, manifestos tropicalistas, diário, anotações esparsas, textos sobre cinema, um diálogo com o escritor Rogério Duarte, correspondência com o artista plástico Hélio Oititica (1937-1980) e os escritos do período em que esteve internado num hospital psiquiátrico.
O outro volume, intitulado ''Geléia Geral'', traz a produção jornalística reunindo os textos que assinou para o Jornal dos Sports, na revista alternativa O Sol, no suplemento Plug (do jornal Correio da Manhã) e na coluna ''Geléia Geral'' do jornal Última Hora. A leitura desse caudaloso material revela uma obra fragmentária escancarando a vocação ''multimídia'' do artista, antes que esse termo fosse cunhado e banalizado.
''Estar bem vivo no meio das coisas é passar por elas e, de preferência, continuar passando'' anotou, certa vez. Embora a biografia heróica ameace a importância de seus escritos, é provável que ''Torquatália'' provoque um curto circuito nas novas gerações. Torquato deixou poemas, letras de canções e uma prosa contundente em colunas de jornalismo cultural.
Aventurou-se ainda pelo cinema dirigindo o super-8 ''O Terror da Vermelha'' e atuando nos filmes ''Nosferato no Brasil'' (super-8 de Ivan Cardoso), ''Helô e Dirce'' (dirigido por Luiz Otavio Pimentel) e ''Adão e Eva no Paraíso de Consumo'' (dirigido em Teresina por Carlos Galvão e, vale sublinhar, citado apenas no livro de Feliciado Bezerra).
Uma carta a Hélio Oiticica, publicada agora em ''Torquatália'', revela que um outro projeto cinematográfico estava a caminho uma tentativa frustrada de rodar de um filme que se chamaria ''Crazy pop rock'' (título de uma canção de Gilberto Gil gravada em Londres). Pires lembra que, assim como as intervenções em outras áreas, ''Torquato faz do cinema um lugar de mistura de todas as suas referências, de vida, cultura e do tempo em que viveu''.
O lançamento das obras completas põe fim a uma arrastada novela nos bastidores da indústria editorial. ''Torquatália'' era para ter saído há pelo menos dez anos pela editora José Olympio então detentora dos direitos de publicação como parte das celebrações dos 50 anos do nascimento do poeta. O lançamento não só não ocorreu, como o projeto ficou empacado e acabou sendo adquirido em 2000 pela editora Rocco. Foram mais cinco anos de espera, agora enfim suprida. Vitória dos leitores.

Serviço:
- ''Torquatália Do Lado de Dentro''. Organizado por Paulo Roberto Pires. Editora Rocco. 368 páginas. R$ 44,00.
- ''Torquatália Geléia Geral''. Organizado por Paulo Roberto Pires. Editora Rocco. 408 páginas. R$ 49,00.
- ''A Escritura de Torquato Neto''. Autor: Feliciano Bezerra. Editora Publisher Brasil (telefone 11/3813-1836). 74 páginas. R$ 16,00.

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