Os mitos costumam sabotar a verdade e com grande poder de persuasão conseguem até confundir o rigor da história. Em se tratando do livro o ''Labirinto da Memória - Paisagens de Londrina'', do arquiteto londrinense Humberto Yamaki, o tradicional discurso que descreve a cidade é invadido por outro olhar, que vai além do traçado das ruas e edificações, colocando o mito em seu lugar para deixar que a cidade invisível dê a sua versão.
Quando essa cidade se sente à vontade para ''falar'' - através do resultado do trabalho de pesquisa do autor, doutor em Desenho Urbano no Joint Centre for Urban Design/Oxford Polytechnic (Inglaterra) - o leitor descobre a sua intimidade.
Londrina aparece diferente e não apenas cortejada por uma afamada colonização inglesa, que na realidade só contou com sete representantes dos súditos da rainha, mas que entre os 31 grupos étnicos de colonizadores teve 1.823 brasileiros.
Lançado ontem, no Museu Histórico de Londrina, o livro patrocinado pelo Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic), deve ser distribuídos em bibliotecas, pretendendo abrir novas discussões sobre as paisagens da cidade, cenário que não é feito somente de cimento armado, mas de toda cultura londrinense.
Uma cultura que não atendeu à planta inicial de autoria de Alexandre Razgulaeff, em 1932. Formado em 1914 pelo Instituto de Geodesia Constantino de Moscou, ele não sucumbiu ao modismo dos traçados sinuosos, comuns nos bairros novos paulistanos da década de 20, optando pelo traço ortogonal, modelo mais rude e que empurrou a floresta para dar lugar a uma cidade com vocação cosmopolita.
Uma cidade que, no papel, seria de alamedas e jardins mas que, dona de si, e não obedecendo aos projetistas, inventou que queria ter praças. ''O mais importante é perceber que o olhar é que define a construção de uma cidade'', explifica Yamaki, derrubando entre outros mitos o de que a pavimentação da Praça Rocha Pombo seguiu os caminhos feitos pelos pedestres.
Entre o acervo de fotografias do livro, algumas são inéditas, como a da Praça Floriano Peixoto. Cenário conhecido, mas que no passado, além de emoldurar a matriz, o jardim florido empurrava a floresta.
Modismos como o frequentar a Avenida Rio de Janeiro num época em que era comum a cobrança de 5 cruzeiros por um passeio de charrete, valor que dobrava em dias de chuva, ilustram essa cidade que emerge da pesquisa, onde a cozinha dos pioneiros, em 1931, esperou pela visita do príncipe de Gales, fato que nunca aconteceu. São alguns dos detalhes assinalados por Yamaki, que arquitetou um resgate histórico, que conseguiu vencer de certa forma, as artimanhas dos mitos.

Serviço:
- Livro ''Labirinto da Memória - Paisagens de Londrina'', Humberto Yamaki.

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