LIVRO/LANÇAMENTO - Uma floresta de linhas e traços
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 24 de março de 2004
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
A artista plástica londrinense Cláudia Rezende trouxe uma novidade, uma grande novidade de uma de suas últimas viagens a Inglaterra. Foi há 5 anos, quando voltou de Londres com um esboço de livro infantil na mochila e cuja história escrita em inglês havia sido criada durante um curso livre na Chelsea School of Arts. Pensou em publicar o texto casando-o com ilustrações de sua própria autoria. Seria sua primeira incursão pela literatura.
Mas não demorou muito para arquivar a idéia, convencida das dificuldades do mercado editorial brasileiro. Posteriormente, por insistência de amigos, inscreveu o projeto no Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic) e foi aprovada. O resultado poderá ser conferido pelos leitores mirins a partir de hoje com o lançamento de ''Perigo na Floresta'', às 19h30, no Tomate Seco Café Teatro (Av. Maringá, 1.730).
A trama narrada no livro é ambientada na floresta amazônica. Foi inspirada numa fábula de Esopo, o escravo contador de histórias que viveu na Grécia há 3.000 anos. Nas primeiras páginas, os macacos se reúnem assustados para falar sobre um monstro (na verdade, uma onça) que estaria dizimando seus pares. O que ocorre a partir daí, Cláudia não revela. O livro repercute algumas de suas reflexões a respeito da identidade visual brasileira.
Lembra que, quando estamos fora do País, ''essa identidade fica mais clara''. No livro, procurou dar visibilidade à flora e fauna do País. ''Os animais de nosso habitat não estão presentes em nosso imaginário infantil'' diz. ''Desde crianças, brincamos e temos contato com histórias recheadas de ursos, girafas, lobos e outros bichos encontrados nas selvas africanas. Percebi também que, no âmbito popular, há poucas informações sobre a fauna que não sejam aquelas ensinadas nas aulas de biologia. Há pouco respeito pela nossa natureza. Tentei focalizar isso, mas de forma sutil, sem direcionar a história para a temática ambiental''.
Ela argumenta que somos criados com o olhar do colonizador, o ''olhar do usuário'', o que exige um combate diário sob o risco da perda de identidade. ''A ação educativa começa na infância, na valorização de nosso jeito de ser, de nosso humor, no jeito que andamos e comemos. E num mundo globalizado, onde as culturas e etnias passaram a ter grande importância, é preciso conhecer o lugar de onde a gente veio, o que tem nele e como ele é'' diz.
O livro traz paralelamente, segundo ela, mensagems de valorização da solidariedade e convivência com as diferenças. Como sub-tema, há embutido um ataque à pena de morte. O texto, porém, divide as atenções na obra com o cuidado na parte gráfica. Cláudia avisa: ''Sou uma artista plástica que escreveu uma história e a ilustrou. É minha primeira aventura nessa área. Não me considero uma escritora''. Ela ressalta que, no livro, a cor é tão forte quanto a narrativa e o conceito.
''A intenção era fazer com que a imagem explodisse nas páginas. Queria que a linguagem visual fosse a primeira a atrair a criança, que isso a estimulasse a ler. Acho que a ilustração reteve algo de dramático de meu trabalho como artista plástica. O figurativo, ali, tem um namoro com o real. Mas um real distorcido'' diz. Durante a feitura do volume, houve a preocupação ainda com a escolha de um formato grande e a opção por papel grosso, ''resistente aos avanços de uma criança''.
A gestação do livro contou com uma equipe de colaboradores que incluiu designer, revisor, contador e tradutores. Tradutores porque ela planeja lançar a obra em inglês, francês e espanhol. Antes pretende divulgá-la em grande escala nas escolas locais, levá-la à Bienal do Livro, enviá-la para editoras e doá-la para instituições públicas vinculadas à cultura e ecologia. A tiragem é de 1.500 exemplares.
Além do patrocínio do Promic, a edição contou com apoio da Aliança Francesa, Círculo Café Teatro das Artes, Tomate Seco Café Teatro, Mr. Cuca, Planografia e Escola de Idiomas Outras Línguas. Debutando na literatura, Cláudia tem quase duas décadas de atuação como artista plástica. Nasceu em Uberaba (MG), mas vive em Londrina desde criança. Já montou exposições em diversas galerias e museus, entre coletivas e indivuais, entre as quais destacam-se a VII Mostra do Desenho Brasileiro (em Curitiba), o 43º Salão Paranaense (Curitiba), MA Fine Arts Final Show (Birmingham-UK) e Europart - Feira Internacional de Arte (Genebra-Suiça).
Morou alguns anos na Inglaterra, onde realizou diversos cursos livres, além de especialização e mestrado. Hoje à noite, durante a sessão de autógrafos, estão previstos uma apresentação da trupe Aero Circus e um show musical da cantora Elda Assoni acompanhada do grupo Cia. Musical.
Serviço:
- Hoje: Lançamento com sessão de autógrafos do livro infantil ''Perigo na Floresta'', de Cláudia Rezende. Horário: 19h30. Local: Tomate Seco Café Teatro (Av. Maringá, 1.730).


