Ela completa hoje 99 anos e marca a data com o lançamento de um livro com passagens de sua vida. Histórias contadas pela mineira Jolinda Fenelon de Souza Gouvêa foram transformadas em livro pelo jornalista e escritor Paulo Briguet. ''Amanhã Escreverei à Joaninha'' será lançado hoje, às 17 horas, no Museu de Arte de Londrina.
Em conversa com a reportagem da Folha2, Dona Jolinda ri e diz que ''não era preciso esse negócio de livro'' e que as histórias contadas são apenas ''retratos de um dia-a-dia corrido''. Na verdade, o livro traz passagens e fatos que marcaram a vida dessa mulher, que chega aos 99 anos carregando na memória um baú de acontecimentos que são verdades concretas ou imaginadas.
Apesar de dizer que não liga muito para essa coisa de contar histórias, dona Jolinda atravessou os anos relatando tais acontecimentos de forma acolhedora e atraente. Tanto que, depois de ouvi-los desde criança, o neto José Quirino Gouvêa Moraes teve a idéia de colocá-los em um livro. Para isso convidou Paulo Briguet, que gravou os depoimentos entre março e junho de 2002 em 15 fitas cassete. ''Meu filho achou que deveria passar para o papel as histórias da avó, para que não se perdessem no tempo e para que os netos pudessem conhecer. No início ela se assustou com a publicação de um livro, mas depois gostou das conversas com o Briguet'', conta Maria do Carmo Gouvêa de Moraes, filha de Jolinda e mãe de José Quirino.
Nascida em 1904 na cidade de Uberaba (MG), Jolinda presenciou as transformações do Brasil, observou mudanças no campo e na cidade e viu os caminhos que a vida trilhava para as novas gerações. Aos seis anos, mudou-se com a família para Três Lagoas (MT), onde casou-se com o médico Pelópidas Gouvêa. No início dos anos 60, o casal foi para o Rio de Janeiro e, seis anos depois, chegou em Londrina com cinco filhos. Viúva desde 1977, dona Jolinda tem atualmente nove netos, 11 bisnetos e uma trineta de um ano.
Dona de casa, ela também se dedicava a outros afazeres: gostava de pintar, bordar e fazer crochê. Também teve uma intensa vida religiosa na igreja católica. Hoje, seu passatempo predileto é assistir televisão. ''Gosto de ver a Rede Vida. Só isso!'', conta.
Os fatos e acontecimentos do dia-a-dia relatados estão transcritos no livro em histórias independentes, que podem ser lidas sem uma ordem definida. O livro traz ainda fotos de familiares e relatos do imaginário popular.
A história da onça, por exemplo, ficou fora da publicação, mas dona Jolinda faz questão de contar. ''Aconteceu no sertão matogrossense. Lá as mulheres lavavam roupa no córrego. Dizem que uma mãe preparou a bacia e foi ao rio lavar roupa, quando ouviu um grito terrível. Era a onça que tinha mordido a criança na bochecha. A mãe pegou uma rama de mandioca e pediu que Nossa Senhora tomasse conta da criança''. Um dia, um padre contou essa história numa reza e dona Jolinda tratou de dizer que o fato era verídico: ''Meu pai e meu avô conheceram a moça! Depois disso, o padre mandou lavrar a história real no livro de registros''.
''Amanhã Escreverei à Joaninha'' é uma frase do bisavô de Jolinda, o boiadeiro Zeca Pontes. Em suas viagens, ele escrevia cartas à mulher, Joaninha, contando tudo o que se passava. Jolinda e a bisavó foram grandes amigas. ''A gente via as constelações juntas e ela me explicava tudo. O que sei de astronomia hoje aprendi com ela'', ressalta. A filha Maria do Carmo completa: ''Além de amigas, elas eram rezadeiras!''.
Essa história é mais ou menos assim: ''A missa da Igreja de São Domingos começava às quatro e meia da manhã. Entre a casa e a igreja, Joana apontava as constelações para a pequena Jolinda. Ensinava à neta que os corpos celestes também tinham nome, como a gente. E, às vezes, tinham nome de gente. Um dos caminhos do céu leva o nome do primeiro homem: é a Cova de Adão, uma enorme mancha branca, parte da Via Láctea. E a Via Láctea se chama assim porque é branca como o leite, no meio da escuridão''.

Serviço:
- ''Amanhã Escreverei à Joaninha - Histórias de Jolinda Fenelon de Souza Gouvêa contadas a Paulo Briguet''. Lançamento: hoje, às 17 horas, no Museu de Arte de Londrina (Rua Sergipe, 640). Apoio: Secretaria Municipal de Cultura.
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