O império de Mauricio de Sousa nasceu com um raio de 100 quilômetros e epicentro em Mogi das Cruzes. Era a área demarcada no mapa com um compasso, em 1960. A partir dali, o criador da Turma da Mônica visitaria as redações dos jornais para oferecer seu principal produto: tiras de um cachorro azul e seu dono metido a cientista. Não parecia, mas começava a história mais bem-sucedida dos quadrinhos brasileiros. É esta trajetória que o jornalista Sidney Gusman conta na principal biografia já feita sobre Mauricio de Sousa: ''Mauricio, Quadrinho a Quadrinho'' (Ed. Globo).
Gusman gravou, em três conversas longas, horas de entrevistas com Sousa, nas quais falaram sobre sua formação artística - adquirida sobretudo pela leitura de gibis, como ''Mandrake'', na infância. O resultado é um livro com ritmo de bate-papo entre dois aficionados por quadrinhos. ''Ele não queria um tom sisudo. Parecia uma criança contando as histórias. Realmente ele viajou no tempo'', diz Gusman.
Foi assim que apareceram no livro revelações inéditas e assuntos que o desenhista só tinha abordado de maneira superficial, como quando levou seus desenhos para serem avaliados por Orlando Mattos, um renomado ilustrador e chefe de arte de um importante jornal de São Paulo. Dele, Sousa recebeu como conselho desistir dos quadrinhos. Acabou trabalhando no mesmo jornal. Tornou-se primeiro copidesque (pessoa que reescrevia as matérias, função hoje extinta) e, depois, repórter policial. Aos poucos, suas ilustrações começaram a ser requisitas nas matérias e, em 1959, lançou a tira semanal do Bidu.
No ano seguinte, já fazendo exclusivamente quadrinhos, começou a enviar para as redações de jornais de todo o Brasil as tiras do Cebolinha e do Piteco, além de Bidu. O sucesso veio ainda na década de 60, quando Mauricio e sua filha Mônica (que inspirou a personagem dentuça) participaram do programa da Hebe, que na época era exibido pela ''Record''. Também foi nos anos 60 que o elefante verde Jotalhão foi criado para a marca Cica, denotando a vocação de Sousa também para os negócios.
A fama seria reforçada com o ingresso da Turma da Mônica na Editora Abril, onde a produção dos quadrinhos passou a ser feita em larga escala. Estrutura semelhante só havia na Disney, cujos personagens eram os principais concorrentes de Mônica, Cascão e companhia no Brasil até os anos 70.
O estilo nada autoral de produção usado pelo desenhista provocou críticas que ecoam até hoje. ''Criticam como se fosse algum pecado ganhar dinheiro'', defende Gusman. Como argumento, o jornalista cita o prestígio de Sousa no exterior e entre os famosos dos quadrinhos. ''Tenho 15 enciclopédias 'gringas' sobre quadrinhos e poucas falam do Brasil. Quando falam, é sobre Mauricio. Will Eisner (criador de Spirit) era fã, Osamu Tesuka (criador do mangá) era fã. Quantos podem dizer isso?''
Sousa também era fã dos dois artistas. No final do livro há 30 verbetes com o perfil dos autores preferidos pelo criador da Mônica, que se revela fã de personagens como Calvin. ''Este é um personagem que eu gostaria de ter criado'', revela. O desenhista Henfil também está entre os preferidos. ''Quando lia aquilo, Mauricio se perguntava se também deveria fazer algo semelhante. Depois, percebeu que o seu negócio era mesmo os personagens infantis, mas chegou a criar Nicodemo, um personagem mais ácido.''
Hoje, aos 70 anos, seus gibis são vendidos aos milhões, em dezenas de países, dos Estados Unidos à Indonésia. E tudo começou com um desenho em um mapa. Nada mais adequado.

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