LIVRO/LANÇAMENTO - Memória inscrita na madeira
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 01 de junho de 2004
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
Qual é a identidade arquitetônica do Norte do Paraná? Quem olhar pela janela, dificilmente vai encontrar uma resposta, mesmo porque a verticalização dos imóveis tratou de esconder os últimos vestígios do que foi um dia o patrimônio paisagístico dominante na região.
''Arquitetura em Madeira'', livro que será lançado hoje em Londrina, reconstitui a memória das casas construídas à base de peroba rosa entre as décadas de 30 e 60. O autor, Antonio Carlos Zani, faz um inventário das construções em madeira reunindo uma vasta iconografia do legado. ''É um livro mais de imagens que de texto, por isso é acessível para leitores não-especializados'' avisa o professor da UEL e da Unopar.
De fato, a grande maioria das 400 páginas é dedicada a desenhos e fotografias das edificações que serviram de suporte para o desenvolvimento de Londrina e arredores. Zani demonstra que uma cultura arquitetônica vicejou graças à abundância madeireira na região, estabelecendo-se a partir da vinda de migrantes e imigrantes durante o período de colonização.
Ele lembra que tanto na zona urbana como na rural, levantaram-se casas de madeira adaptadas às condições locais e subordinadas a algumas regras construtivas que cada um trazia de seu ambiente de origem. No desembarque, os imigrantes carpinteiros particularmente os japoneses e alemães nunca deixaram de imprimir ''marcas'' no repertório arquitetônico de suas moradias, ainda que combinando-as com os recursos comuns à tradição.
''Eles conseguiram criar uma linguagem própria, capaz de expressar uma cultura arquitetônica local, dominando a técnica de trabalhar a madeira e criando um repertório arquitetônico rico e singular'' afirma. Casas, escolas, igrejas, casas de comércio, salões de festas, capelas todas as edificações eram supridas pelas serrarias e carpinteiros que proliferavam na região.
Ao pesquisar o período compreendido entre os anos 1930 e 1940 conhecido como ''Terra da Promissão'', segundo representação difundida pela Companhia de Terras o Norte do Paraná , o autor assinala a simplicidade das construções, feitas com caráter provisório, erguidas sob a urgência da ocupação da terra e necessidade imediata de abrigo.
Já o ápice da arquitetura de madeira coincidiu, segundo ele, com o apogeu da cultura do café. A fase, conhecida historicamente como ''Eldorado'', abrange as décadas de 40 a 60. É quando começam a aparecer ornamentos, riqueza de cores e texturas, elementos, enfim, que caracterizam preocupações estéticas. A influência de imigrantes japoneses e alemães reflete-se na maior complexidade das construções que ganham varandas, frontões e detalhes em madeira rendilhada.
Um terceiro período, correspondente ao ''Fim da Eldorado'', é marcado pela escassez de madeira aproximando o custo da edificação com a matéria-prima antes abundante ao das construções em alvenaria. Tal fato, registrado no final dos anos 60, fez com que as habitações voltassem a apresentar soluções rústicas. Na década de 70, as demolições contínuas provocam uma mutação na paisagem arquitetônica do norte paranaense. O ''boom'' da construção civil, nos anos 80, atira uma última pá de cal sobre os caixões de madeira.
Zani lamenta a omissão dos poderes públicos no sentido de preservar esse patrimônio. ''Há até uma legislação, que data de 1951, proibindo a construção de residências de madeira no quadrilátero central de Londrina. O preconceito era grande. Na época, eles achavam que as casas de madeira eram material de segunda catetoria, contrárias à modernidade. Essa imagem prevalece até hoje'' diz.
Ele observa que o desaparecimento dessa arquitetura vem ocorrendo com a mesma velocidade com que foi construída. Defende sua preservação, mas para dar futuro ao passado: ''A madeira é único material renovável, ao contrário do cimento ou da pedra'' enfatiza. ''É possível aproveitá-la, não através de uma visão artesanal nostálgica calcada na madeira maciça, mas a partir da matéria transformada, que é barata. Por que, então, não construir casas em série usando alta tecnologia?''. Para um país que padece de déficit habitacional, é sugestão para se pensar.
O lançamento do livro será às 20 horas na livraria da UEL.


