Curitiba - O lançamento foi tímido, restrito apenas ao Rio de Janeiro, berço da editora Lamparina, mas o livro ''A linha que nunca termina - Pensando Paulo Leminski'', já pode ser encontrado em (quase) todas as livrarias do País. A obra reúne textos de 44 autores, incluindo paranaenses, sobre a vida e obra do poeta e foi produzido para marcar o ano em que Leminski completaria 60 anos, em 2004. O atraso não tira o mérito da obra. Organizado por André Dick e Fabiano Calixto, o livro tem alguns detalhes interessantes. Por exemplo: o número de autores foi escolhido para ilustrar o tempo que Leminski viveu.
Alguns textos são inéditos e produzidos especialmente para o livro, outros foram tirados de publicações anteriores. O critério de escolha dos autores, segundo os organizadores, foi o fato deles estarem ''de algum modo, ligados à obra de Leminski''. São desde pessoas que conviveram com ele, como Alice Ruiz que viveu 19 anos com Leminski e teve três filhos com o poeta Toninho Vaz, autor de uma ampla biografia sobre o ''poeta da Cruz do Pilarzinho'' (''O bandido que sabia latim'', Record, 2001), Haroldo de Campos e Arnaldo Antunes até escritores que não conviveram absolutamente com Leminski, mas estudaram a obra dele, como o mineiro Ricardo Aleixo.
Este último, conta em seu ensaio ser dono de uma foto de Leminski ao lado da cantora Fortuna, datada de 1988, um ano antes da morte dele, e aproveita o registro para fazer uma análise das composições do poeta. Toninho Vaz segue o mesmo caminho, embora com embasamento muito maior. Sem se prender a elucubrações dispensáveis, como o fazem alguns autores do livro, Vaz reforça as parcerias que Leminski realizou ao longo da vida, algumas até registradas precariamente em guardanapos, e que se perderam no tempo, e reproduz em seu artigo algumas dessas pérolas.
Mas mesmo o enxuto artigo de Vaz não traz nenhuma informação inédita e ajuda a transformar o livro numa espécie de manual acadêmico para entender a obra do poeta. Alguns autores, no entanto, fogem do senso comum da análise e se fixam em depoimentos, muitas vezes comoventes. É o caso da cantora e poeta Neuza Pinheiro, que trocou Londrina por São Paulo na década de 80. O relato dela: ''(...) dia Azul, ele pintou. Camiseta florida, calça amarelona, a sandália, o bigode, os óculos... e aquela gana de dominar o mundo com.. poesia!''. E mais: ''Um dia me perguntou por que tão quieta. Confessei: não gostava do meu nome, se atraísse a atenção sobre mim, iriam me chamar: Neuza, Neuza... E ele: 'eu neuzo/tu neuzas/mas nada como ela. Ela apenas Neuza./E como neuza bem'. E me livrei do trauma.''
A ''Parábola do pai-de-todos túrgido'', assinada por Nelson de Oliveira também merece destaque: ''Nosso dileto Paulo foi o mais versátil dos chefes de cozinha, capaz até de dar ao mundo duas iguarias de tempero e temperamento opostos: duas obras-primas irmãs, duas pontas da mesma cobra. 'Catatau' é o caviar da elite, 'Agora é que são elas' é o quindim da meninada'', numa referência às duas obras produzidas por Leminski, a primeira levou oito anos para ficar pronta e recentemente ganhou edição comentada da Travessa dos Editores, coordenada por Décio Pignatari.
''A linha que nunca termina'' alterna depoimentos, artigos, parábolas e prosas interessantes e dispensáveis, mas não deixa de ser uma bela homenagem ao poeta paranaense. O livro traz também uma cronologia da vida e obra de Leminski, citando publicações lançadas até o ano passado, além de algumas fotos cedidas pela família dele. O título é uma alusão ao poema ''Vim pelo caminho difícil'', publicado no livro ''Distraído Venceremos'' (Brasiliense, 1987). (''Vim pelo caminho difícil, a linha que nunca termina, a linha bate na pedra, a palavra quebra uma esquina, mínima linha vazia, a linha, uma vida inteira, palavra, palavra minha''). Paulo Leminski morreu aos 44 anos, de cirrose.

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