Ana Paula Nascimento
Reportagem Local
Extrapolar a dimensão da sala de aula e ganhar sentido para a vida. Esta é a proposta na qual um grupo de professores de Londrina acreditou quando decidiu escrever um livro sobre a relação entre energia e meio ambiente focado na interdisciplinariedade em que as informações são mais do que dados úteis para a aprovação no vestibular. O livro é dirigido para alunos do Ensino Médio, professores e interessados no assunto.
De um incômodo, fruto de reuniões constantes sobre a avaliação das disciplinas desenvolvidas por eles, nasceu o desejo desafiador de elaborar um material que efetivamente contribuísse para o desenvolvimento do senso crítico dos alunos com relação à ecologia. ‘‘Manipulação da Energia e Suas Conseqüências: Energia e Meio Ambiente’’ foi escrito por Alcides B. Filho (Física), Cezar A. Vargas (Biologia), Junio C. da Silva (Química) e Marcelo A. Sardinha (Geografia), docentes do Colégio Universitário.
Elaborado totalmente de forma independente, o livro é o resultado de um ano e meio de pesquisa e o lançamento foi realizado no último dia 16, na Livrarias Porto. Nessa primeira fornada, 1.000 exemplares foram feitos e o livro também já está sendo divulgado em cidades de Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Em Londrina, o grupo também pretende divulgar pessoalmente o material em escolas particulares e públicas.
Com uma linguagem didática e bastante acessível, o livro aborda de forma interdisciplinar questões relacionadas aos seguintes temas: energia, lixo, chuva ácida, efeito estufa, atmosfera e inversão térmica. Há também sugestões bibliográficas e sites para pesquisa dos assuntos correlacionados.
Por ter uma abordagem em que são considerados os conhecimentos em diferentes áreas dos autores, o resultado final do livro é um material rico e, segundo os autores, inédito na área de ensino ao oferecer uma fonte de estudo realmente interdisciplinar, onde houve a preocupação de aprofundar as temáticas pertinentes não só no âmbito acadêmico, mas também para a melhoria da qualidade de vida. ‘‘Muitas vezes o que a gente vê no mercado são materiais didáticos que se dizem ‘interdisciplinares’, mas que na verdade só fazem ‘enxertos’ dos assuntos transversais. Não há uma visão realmente holística dos fenômenos estudados. Não há como falar do petróleo e não falar das guerras que estão envolvidas nessa questão’’, afirmou Junio da Silva, professor de Química.
E diante do apelo da internet, que cada vez mais favorece à impressão de se estar bem informado diante de um ‘‘mar’’ virtual de informações, o grupo explica o diferencial do livro: ‘‘Na internet tudo está fragmentado. O que fizemos foi um trabalho em conjunto onde realmente se fez o cruzamento das informações e não houve uma abordagem isolada’’, argumentou Marcelo Sardinha, professor de Geografia. O professor Silva também acrescentou: ‘‘O mais importante é a ação provocativa que propomos ao despertar a reflexão. Quando o aluno tem uma visão mais ampla, ele se torna um cidadão melhor’’.
Entre os termos pesquisados pelos professores, a constatação da dimensão da problemática da produção de lixo os impressionou. Outro ponto preocupante apontado por eles é a questão do prejuízo dos agrotóxicos para a saúde humana. ‘‘É absurdo o quanto eles podem fazer mal a nós, e há diversas pesquisas que demonstram a relação direta entre os agrotóxicos e o aumento do índice de câncer na população’’, ressaltou Silva.
O professor de Física, Alcides Filho, também destacou a importância do custo indireto que o conforto insere e que muitas vezes passa despercebido. ‘‘Todos querem andar confortavelmente em carros com ar condicionado, mas ninguém pára para pensar no que isso representa em termos de conseqüências para o meio ambiente. Sem um trabalho preventivo, haverá uma cobrança no futuro, um ‘custo-prejuízo’, que não se vê na hora da compra e já estamos começando a sentir no ambiente, veja, por exemplo, a seca no Amazonas e o ciclone em Santa Catarina’’, defendeu.
Na contramão do desânimo que muitas vezes assola as pessoas que trabalham no âmbito escolar, o grupo dá uma lição de iniciativa em prol de uma educação de mais qualidade.

O lixo que vem da agricultura

Não distante da realidade dos centros urbanos, encontramos o campo sofrendo com os impactos ambientais oriundos do seu próprio lixo. Os agricultores de hoje produzem as melhores safras jamais vistas, mas pagam um alto preço por isso: antigas florestas estão sendo cortadas, charcos vêm sendo drenados, o relevo natural sendo modificado pela erosão e, se não bastasse, o uso indiscriminado de agrotóxicos e fertilizantes destruindo ecossistemas e poluindo mananciais.
Os agrotóxicos, inseticidas, herbicidas e fungicidas, são compostos nocivos tanto para as pragas como para o homem, sendo que a maioria desses venenos são biocumulativos, isto é, a quantidade absorvida a cada aplicação vai sendo somada até atingir doses tóxicas agudas. No homem sua presença pode causar diversas alterações à saúde. A curto prazo, esses sintomas ficam restritos à tontura, pertubação da visão, náuseas, vômitos e dor de cabeça. Mas, ao longo prazo, o acúmulo pode causar depressão do sistema nervoso central (SNC), problemas renais e cardiácos, atrofiamento do fígado, quebras cromossômicas e o aparecimento de doenças degenerativas como o câncer.

NÃO TROPECE NA LÍNGUA

Não antes...
Maria Tereza de Queiroz Piacentini

Tenho três dúvidas sobre o nexo ‘‘não sem antes que’’:
1 - A oração subordinada adverbial que introduz é temporal ou final ou consecutiva?
2 - É aceitável que um verbo no futuro de conjuntivo (futuro do subjuntivo) siga este nexo, como no exemplo nº 2 abaixo?
3 - Qual seria um sinônimo de ‘‘não sem antes que’’?
1 - Tu sempre passas o hotel das luzes acesas, não sem antes que o porteiro te saúde, chamando-te de Elias.
2 - Tu sempre vais passar o hotel das luzes acesas, não sem antes que o porteiro te saudar, chamando-te de Elias. Eugênio Geppert, Chicago/IL, EUA
É possível construir duas frases sintaticamente corretas para exprimir este fato: ‘‘Sempre que passas o porteiro te saúda’’:
1 - Tu sempre passas o hotel das luzes acesas, não sem antes que o porteiro te saúde, chamando-te de Elias. (A oração subordinada é desenvolvida.)
2 - Tu sempre vais passar o hotel das luzes acesas, não sem antes o porteiro te saudar, chamando-te de Elias. (Aqui a oração é reduzida de infinitivo, o que resulta na eliminação da conjunção que).
  Não sem antes que não configura locução conjuntiva - esta seria apenas ‘‘sem que’’ precedida de uma negativa e com a inserção do advérbio ‘‘antes’’, tanto que podemos ter o seguinte desdobramento, com a negativa na 1ªoração:
- Tu não passas sem que o porteiro te saúde.
Aliás, é essa forma (não ... sem que) mais usual na língua portuguesa, aquela que soa mais espontânea.
SEM QUE pode ser conjunção ou locução conjuntiva condicional, temporal, consecutiva ou concessiva. Pelo exemplo clássico, ‘‘Não irei sem que ela chegue’’, que equivale a ‘‘Não irei antes que ela chegue’’, deduz-se que a frase em discussão é temporal, o que se confirma com a substituição de ‘‘não sem antes que" por outras expressões de tempo: ‘Tu sempre passas o hotel, quando então / momento em que o porteiro te saúda’’.
Por outro lado, parece também condicional, pois quando se troca ‘‘sem que’’ por ‘‘a menos que’’ vê-se uma possibilidade disso: ‘‘Não passas a menos que o porteiro te saúde’’. Esta seria outra opção para o caso, porém ela transmite um sentido um pouco diferente - não é o sinônimo desejado pelo consulente, que realmente não existe.
Oração reduzida de infinitivo
Ainda quanto à frase 2 da consulta, devo esclarecer um pormenor sobre o verbo: aí não se trata de ‘‘futuro de conjuntivo/subjuntivo’’ mas de infinitivo, que nos verbos regulares tem conjugação igual, confundindo-nos quanto à sua classificação. Lembro que o infinitivo na língua portuguesa pode ou não flexionar de acordo com o sujeito.
Vejamos outros exemplos de oração reduzida de infinitivo:
Sem sair de casa há dias, Elias acabou adoecendo.
Sem fazeres os deveres, nada de cinema pra ti.
Sem estarmos com a casa arrumada, não faremos o piquenique.
Não vamos ao parque antes de termos a casa pronta. Você só pode sair depois de fazer os deveres.
Ao discursar, os políticos assumem um outro tom de voz.
Ao entrar no recinto, as belas garotas deixaram-nos embasbacados.
Maria Tereza de Queiroz Piacentini é diretora do Instituto Euclides da Cunha e autora dos livros ‘‘Só Vírgula’’, ‘‘Só Palavras Compostas’’ e ‘‘Língua Brasil: Crase, pronomes & curiosidades’’ - www.linguabrasil.com.br

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