Existem pessoas que podem nascer em Itaguaçu e acabam brilhando em Paris. É o caso de Danuza Leão, mistura de charme e inteligência que resultou numa das mulheres mais interessantes do cenário nacional. Ninguém se lembra da Danuza armando barraco para chamar a atenção, ninguém se lembra da Danuza forçando a barra para aparecer em alguma situação, ninguém se lembra da Danuza passando por cima de alguém para levar vantagens. Ela pertence a uma linhagem em extinção: a das mulheres modernas e cheias de classe. Agora, ela volta à cena com a naturalidade de sempre ao lançar ''Quase Tudo'', um livro das memórias colhidas ao longo dos seus 72 anos de vida. 72? Isso mesmo, ela confessa despudorada, da mesma forma que assume que já mentiu a idade, tendo conseguido alterar até a data de nascimento num passaporte. O que Danuza não fez?
Ícone da liberdade feminina nos anos 50, ela antecedeu Leila Diniz nas atitudes incomuns para as mulheres de sua geração. Aos 17 anos transformou-se em modelo internacional e foi trabalhar em Paris com o costureiro Jacques Fath. Junto com ela, Carmen Mayrink Veiga ensaiando os primeiros passos na passarela e também como socialite. É Carmen quem conta: ''Enquanto eu queria jantar no Maxim's toda emperiquetada, ela circulava pela Rive Gauche usando jeans. Era uma bossa completamente nova.''
Na primeira fase parisiense, Danuza caiu de amores pelo ator Daniel Gélin, tornou-se sua amante, diz, na falta de expressão melhor para definir um romance conturbado. Ela conta: ''Mesmo gostando de Daniel, eu não ficava em casa pensando nele. Pensava, mas enquanto pensava, fazia a ronda nas boates da moda...Eu sofria, claro, mas acho que não existe sofrimento melhor que o do amor quando se tem 18 anos.''
Ainda no início da década de 50, aos 19 anos, viria o casamento com o jornalista Samuel Wainer. Ele com 41 anos e amigo do presidente Getúlio Vargas. Dono do jornal ''Última Hora'', considerado uma trincheira de Getúlio, Wainer tinha muito poder. Danuza teve com ele seus três filhos. Deborah, depois conhecida como Pink Wainer, em 1954; Samuel Wainer Filho, o Samuca, em 1955, e Bruno, em 1960. Com o marido influente, ela viajou pelo mundo, entrando em contato com líderes políticos que se transformariam em lendas do século 20, como Mao Tsé Tung, Nikita Krushev e Dolores Ibárruri, conhecida na Guerra Civil Espanhola como ''La Passionária''. O ambiente de poder não tirou de Danuza a própria vontade. Ela continuou descolada e, como sempre, dona do seu nariz a ponto de desafiar as convenções se o coração mandasse. Entre 1960 e 1961, após anos de casamento com Samuel Wainer, ela se apaixonaria pelo jornalista, cronista e compositor Antonio Maria. Sedutor e dono de uma ''personalidade exuberante'' segundo ela, Antonio Maria escrevia para o jornal ''Última Hora'', de onde saiu depois de se envolver com a mulher do patrão. A paixão duraria quatro anos. Ela diz que Antonio Maria sofria de um ciúme doentio. E, no livro, não poupa suas imperfeições ao mesmo tempo em que exalta as qualidades de Samuel Wainer. ''Eu deixei o homem perfeito pelo imperfeito'', conta, resumindo o que costuma acontecer com as mulheres apaixonadas.
Em 1972, ainda ligada por amizade a Wainer, que estava no exílio em Paris, Danuza conheceria o terceiro marido, o também jornalista Renato Machado. No início do namoro, Wainer tomava uísque com o casal no sofá, como um progenitor cuidando da filha. Com ela, Renato Machado diz que aprendeu muitas coisas. Nos anos 70, Danuza estava consolidada como símbolo da mulher emancipada e sofisticada. Locomotiva da vida noturna do Rio, atuava como ''directrice'' , atraindo gente famosa a lugares badalados como as boates Regine's e Hippopotamus. Com tanta bagagem, vivência e liberdade, Danuza viveu momentos muito felizes e sobreviveu a tragédias, como a morte do filho Samuca, também jornalista, em um acidente de carro em 1984, e a perda da irmã, a cantora Nara Leão, em 1989.
Os altos e baixos de uma vida cheia de glamour, alegrias, tristezas e, sobretudo, humanidade, podem ser conhecidos em ''Quase Tudo'', livro que leva este título porque Danuza diz que ainda falta muita coisa para acontecer. Em 1993, ela estreou no Jornal do Brasil como colunista. Atualmente escreve para a Folha de S.Paulo cumprindo uma espécie de sina com o jornalismo, profissão com a qual sempre andou de mãos dadas. Danuza sabe tornar interessantes suas histórias. O livro que acaba de ser lançado pela Companhia das Letras, foi cobiçado por outras três editoras antes de ser publicado. Todos já sabiam que o relato seria, no mínimo, o documento de uma época pontuado por nomes e fatos essenciais para a compreensão do Brasil moderno. Mais do que isso, o testemunho de uma cidadã do mundo, uma mulher que soube usufruir da liberdade, da beleza, das oportunidades para transformar sua história num capítulo de muita personalidade que pode simplesmente ser chamado ''Danuza Leão''.
Serviço:
'Quase Tudo'; de Danuza Leão. Editora Companhia das Letras, 224 páginas.R$ 38,00.

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