Curitiba - Qual a diferença entre uma escultura que adorna um túmulo e uma obra de arte? Para a pesquisadora e fotógrafa Clarissa Grassi, nenhuma, exceto a reação das pessoas diante delas. De tanto perceber essa reação negativa na maioria das vezes em relação a essas imagens Clarisa decidiu reagir ela própria. Reuniu fotografias e textos sobre a arte tumular no livro ''Um olhar... A arte do silêncio'', um ensaio sobre o Cemitério Municipal São Francisco, em Curitiba. No livro, ela conta um pouco da história do cemitério, que completou 150 anos da inauguração e revela curiosas informações sobre os túmulos e esculturas do insólito local.
A obra será lançada amanhã, mesmo dia em que acontece a abertura da exposição de algumas fotos que integram o livro. ''Um olhar'' traz mais de 400 imagens fragmentadas de 55 esculturas do cemitério. A idéia de escrever e lançar a obra surgiu há cerca de três anos, conforme conta a autora. Clarissa revela que essas imagens sempre a atraíram. ''Eu gostava de caminhar no cemitério, de observar as esculturas e posteriormente de fotografá-las. Mas ficava abismada com a reação das pessoas'', revela, complementando: ''No primeiro momento, as pessoas gostam, mas quando se davam conta de que era um cemitério, tinham uma reação diferente'', diz.
O desejo de mostrar a beleza e os detalhes desse tipo de escultura através da fotografia aconteceu concomitante à vontade de saber mais sobre essa universo. ''Eu queria entender o que significavam aquelas esculturas e percebi que tem muito pouca bibliografia sobre o tema. A pesquisa se resume mais ao universo acadêmico'', argumenta. A simbologia das esculturas deu margem para uma pesquisa ampla, que passeia por fundamentos católicos e também econômicos, já que apontam para a difusão de comércios específicos, como as marmomarias.
Mas as questões mais interessantes do livro, estão fundamentadas numa pesquisa inédita e que desvendam curiosidades garimpadas em histórias de famílias. Como a do jovem Pierino Riva, morto em 1925. O pai dele, diante da morte prematura do filho, encomendou ao escultor italiano Alberto Bozzoni uma obra em bronze com o rosto do filho. O próprio progenitor posou para o artista, já que pai e filho tinham porte semelhante. Outra história citada no livro é da garota Luci Weisner, que morreu ainda criança vítima de apendicite.
Alguns dias antes, a menina teria ficado encantada diante de mudas de cravos, provenientes de Buenos Aires, que a mãe tinha plantado no quintal de casa. Tão encantada que arrancou todas as flores e colocou na barra do vestido. Os pais, atônitos, não puderam repreender a menina, tamanha a ingenuidade e beleza da cena. Quando a filha morreu, encomendaram uma escultura em mármore que reproduzia a jovem Luci com os cravos para adornar o túmulo da menina.
São histórias tristes, mas também de uma beleza singular, conforme salienta Clarissa. ''Mostram que essas esculturas não são apenas dor, mas representam belas histórias'', diz. Antes de retratar essas imagens para o livro, a autora encarava a fotografia apenas como uma passatempo antes de reuni-las para a publicação. Formada em Relações Públicas, a autora confessa que tem medo do rótulo profissional da fotografia, mas isso não a impediu de concluir o trabalho nem tampouco pensar na sua continuidade. Todas as fotos são em preto-e-branco e foram clicadas com máquinas analógicas e reveladas no processo laboratorial.
Nas 152 páginas dos livros, imagens de detalhes de esculturas brasileiras, francesas, italianas e uruguaias estão divididas nas seções ''Alegorias'', ''Homenagens'', ''Santos e Mártires'', ''História'', ''Anjos'' e ''Cristo''. Apenas ao final do livro o leitor poderá visualizar as obras em seu contexto original, isto é, em pequenas fotos que abrangem todo o contexto dos jazigos.
A publicação traz também um texto crítico sobre o Cemitério São Francisco de Paula, escrito pelo arquiteto Key Imaguire. Em ''Espaço e Saudade'', ele analisa o cemitério da localização aos estilos clássico, neoclássico, neogótico, art nouveau e até o 'paranismo', que se sobrepôs ao art déco nessas bandas do planeta.
O livro foi editado com apoio da Fundação Cultural de Curitiba, com financiamento previsto na Lei Municipal de Incentivo à Cultura através do incentivo de empresas como a Teletex Computadores e Sistemas e a Caixa Econômica Federal. Imagens que compõem o livro também podem ser acessdas no site www.artenosilencio.com.br, por onde também é possível comprar a obra por R$ 30,00.

Serviço:
- Lançamento do livro e exposição fotográfica ''Um olhar... Arte no silêncio'', amanhã, a partir das 19 horas no Solar do Barão (Rua Carlos Cavalcanti 533). Entrada franca.

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