Dois anos depois de ter sido anunciada a intenção de reeditá-lo, chega às livrarias um livro fundamental de arquitetura e paisagismo, o clássico ''Roberto Burle Marx - Arte & Paisagem'', organizado por José Tabacow (Studio Nobel, 224 páginas, R$ 148). O livro foi editado originalmente em 1987.
Burle Marx (1909-1994) foi um artista que viu um sentido sinfônico nas plantas, e que acreditava também na existência de um teatro da natureza que podia ser ''encenado''. Era, para usar o termo francês, um metteur en scene da natureza.
O livro traz um ensaio e 11 conferências inéditos do paisagista, pintor e barítono frustrado Marx. Alguns dos textos já nascem clássicos do pensamento do artista, o festejado criador dos jardins do Ministério da Educação e Saúde, do célebre Palácio Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro (realizados em 1938), e os do Ministério do Exército, em Brasília.
''No teatro, as possibilidades da iluminação estão sendo exploradas ao máximo: a luz é controlada, intensificada, dirigida de acordo com os estados de ânimo sugeridos no desenrolar da peça. Efeitos de luz para acentuar dramaticamente estados de consciência em cenários desprovidos de objetos aliam pesquisas em torno da cor e do porquê da utilização tradicional de determinados tons que significam específicos estados de alma. Podemos aplicar essas novas possibilidades ao jardim. Ele é, em última análise, o lugar onde somos os atores, onde tomamos consciência da natureza como fenômeno estético e como manifestação de vida'', afirmou Burle Marx.
O organizador do volume, José Tabacow, foi colaborador de Marx durante 17 anos. Naquela época, o livro esgotou-se muito rapidamente e não teve uma segunda, porque o artista morreu antes de completar-se o projeto de uma edição revisada.
Ricamente ilustrado com fotos de suas obras, o livro revela o flerte de Burle Marx com práticas renascentistas (como os jatos verticais de água no espelho d'água contrapondo-se à placidez da superfície da residência de Olívio Gomes, em São José dos Campos) e a simbiose com os conceitos modernistas de Oscar Niemeyer, como na residência de Edmundo Cavanellas, em Pedro do Rio (RJ), paisagismo assinado em 1954.
O artista foi diretor do Departamento de Parques e Jardins, no Recife, na década de 30, tempo no qual manteve amizade e relacionamento intelectual com Gilberto Freyre, Cícero Dias e outros artistas e escritores. Foi aluno de Cândido Portinari na Universidade do Distrito Federal e de Mário de Andrade, o autor de Macunaíma. Foi assistente de Portinari nos murais do Palácio Gustavo Capanema.
E foi, principalmente, um dos principais interlocutores de Lúcio Costa, o arquiteto autor do plano piloto de Brasília. Quando conheceu Costa, Burle Marx tinha somente 17 anos, e vivia numa chácara no Leme.
A partir de 1949, quando adquiriu um sítio de 800 mil metros quadrados em Campo Grande, no Estado do Rio, Burle Marx passou a dedicar-se a uma obra que se confundiria com sua vida. ''No princípio, quando comecei, na ânsia de me expressar, as idéias se sucediam, se sobrepunham, e o desejo era o de dizer tudo num mesmo jardim'', contou Marx.
Burle Marx dizia que parte da experiência de que se valia fora adquirida quando realizou o Parque do Araxá, em Minas Gerais, ao lado do botânico Mello Barreto, ''uma verdadeira escola''. Por conta dessa influência de Barreto, ele passou a usar critérios ecológicos na definição dos componentes vegetais de suas obras. Até então, era um intuitivo, escreve Tabacow.
Para ele, mexer na natureza implicava o conhecimento estreito de suas regras, saber por que o lobo-guará estava perfeitamente integrado ao cerrado ''com suas pernas altas e desajeitadas''. O artista tornou-se, com o passar do tempo, um crítico implacável da devastação dos recursos naturais do País. ''A tendência é encarar a natureza como um inimigo a ser dominado'', dizia ele, para quem ''a ferida aberta na floresta'' era de difícil cicatrização.

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