LIVRO/LANÇAMENTO - As impressões de Calvino
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 31 de outubro de 2006
Antonio Gonçalves Filho<br> Agência Estado 
Numa carta escrita em 26 de abril de 1961, o escritor Italo Calvino justificou a decisão de não ter permitido a publicação de seu livro ''Un Ottimista in America'', inspirado pela viagem que fez aos Estados Unidos em 1959-60: após relê-lo nas provas, sentiu tratar-se de uma obra ''excessivamente modesta'' como literatura e, segundo sua mulher Esther, ''não original o bastante como reportagem jornalística''. Lendo ''Eremita em Paris'' (Companhia das Letras, 264 págs.), que inclui o ''Diário Americano 1959-60'', chega-se a uma conclusão semelhante, mas não sobre a falta de talento literário do autor. Calvino, já por essa época, era o respeitado escritor da trilogia iniciada com ''O Visconde Partido ao Meio'' (1952) e concluída com ''O Cavaleiro Inexistente'' (1959) - o livro intermediário é o delicioso ''O Barão nas Árvores'' (1957).
Faltam, no ''diário americano'', o distanciamento jornalístico e a independência ideológica que permitiriam ao leitor uma visão mais objetiva e menos preconceituosa dos EUA de meio século atrás, reduzido por Calvino a um planeta de cheques de viagem, caça-níqueis, excêntricas seitas religiosas, cassinos, beatniks e gays afetados. Calvino desembarcara em Nova York com o mito de Hemingway na cabeça, ou seja, o do homem ativo e heróico em tudo diferente da retórica dannunziana, como já observou Martino Marazzi. De certo modo, decepcionou-se ao não encontrar lá a vitalidade ''natural'' que Vittorini elogiava na ''inventiva'' literatura americana. Constatou apenas a vocação moderna de um país criador de uma nova linguagem, que Pavese havia identificado como ligada ao ritmo industrial.
Calvino era um entusiasta da literatura americana. Foi graças a uma sugestão sua que a Einaudi publicou ''Saul Below e Salinger na Itália''. Mas decepcionou-se ao encontrar em Nova York autores ocupados em escrever sobre beisebol e totalmente ignorantes sobre o que se passava na literatura além do Atlântico. Nas cartas escritas aos amigos, o italiano queixa-se que a literatura americana foi sufocada por exigências comerciais e pela ditadura dos críticos da revista New Yorker, lamentando ainda a falta de bons editores. Mesmo decepcionado com os rumos que a revolução comunista tomou após a invasão da Hungria, em 1956, culpa o capitalismo, ''que envolve e permeia tudo'', e elogia a sociedade soviética, que teria, ao menos , consciência de sua antítese. Os EUA, ao contrário, seriam para ele a pátria da evasão individualista e das ''foundations'', retrato da ''involução ideológica do Ocidente''.
Tudo isso não comprometeu a paixão imediata de Calvino por Nova York. Nova York não era a América da guerra fria ou de negros enforcados em árvores pela Ku Klux Klan, mas a cidade das festas intermináveis, o Nirvana dos emigrados. Por curiosidade, deixou-se levar a um sem-número de coquetéis em casas de ricaços como Barney Rosset (da Grove Press), o único a dar crédito aos escritores da beat generation. Suportou para tanto ''a horrível barba preta e nojenta'' de Allen Ginsberg até o momento em que o poeta convidou Arrabal para assistir a um ''acasalamento entre barbudos'', para escândalo de ambos (o italiano e o espanhol, naturalmente). Além da abundância de gays, Calvino reclama igualmente do excessivo número de lésbicas que encontra pela frente e da dificuldade que tem para topar com prostitutas em Nova York.
Esses seis meses que Calvino passou nos EUA por cortesia da Fundação Ford são revistos não sem temor de parecer redundante por tentar descrever o que ele chama de ''país banal''. Reside aí a falta de curiosidade jornalística que teria tornado mais interessante o ''diário americano'' do escritor. Calvino é extremamente sincero ao descrever os próprios sentimentos, mas deixa que sua história contamine a visão de um país que não entende e pelo qual demonstra pouco interesse. Isso fica claro particularmente quando descreve a paisagem americana como se estivesse assistindo mais uma vez a um filme de John Ford. Ela não desperta em Calvino maior interesse que seus milionários anfitriões, pelos quais demonstra absoluto desprezo.
Conhecido por suas maravilhosas fabulações e, na maturidade, por propostas concretas para viver num mundo mais justo e menos conturbado, o Calvino de juventude parece um pouco perdido entre sua vocação anarquista e o sentido missionário de sua militância comunista. Numa entrevista a Maria Corti, concedida no ano de sua morte e incluída no volume, Calvino fala da esquizofrenia de ser um comunista italiano com uma enorme vontade de ser enterrado como nova-iorquino, embora tenha passado boa parte de sua vida em Paris. E sabia exatamente a razão de se sentir tão atraído por ela. Nova York estaria, de alguma forma, mas próxima da ''cidade ideal'' que outras metrópoles. As razões, segundo ele: é uma cidade geométrica, cristalina, sem passado, sem profundidade e sem segredos.
Não definiria assim as outras cidades americanas que visitou - Detroit, Boston, Chicago, New Orleans e São Francisco. Ao se encontrar com o líder dos estivadores Harry Bridges, o único sindicato forte de esquerda americano na época, definiu-o como um sujeito pouco interessante numa velha cidade de aristocratas onde até os operários teriam o nariz empinado, condenando-o por seu espírito pragmático e pela falta de perspectiva histórica.
''Eremita em Paris'' traz ainda um ensaio sobre a cidade francesa em que manteve uma casa durante anos e definiu como ''uma gigantesca obra de consulta'', uma enciclopédia rica como nenhuma outra cidade. Não fala dela com tanta paixão como Nova York, mas seu texto é revelador: entre a modernidade e a tradição, ele ficou com a última. Paris, afinal pode ser lida como obra de referência, mas Nova York precisa ser continuamente reinventada.


