Curitiba - Tragédias costumam fortalecer as relações familiares e despertar a atenção para acontecimentos do cotidiano que podiam ser relegados ao esquecimento. Foi assim com Helena Camargo. Acostumada a trabalhar duro para criar os dez filhos (entre eles a famosa dupla Zezé di Camargo e Luciano) ela nem se dava conta do quanto sua vida era um exemplo de força e determinação. Apenas seguia o seu rumo. Mas quando sua família viveu o drama do sequestro de um dos filhos, Wellington Camargo, em 1998, ela decidiu registrar tudo o que aconteceu em sua vida em um diário. Uma forma de superar a dor daquele momento.
Felizmente o sequestro, um dos mais longos no Brasil, terminou com o rapaz vivo, mas Dona Helena não deixou de escrever suas memórias. ''Eu comecei a contar a vida dos meninos. As dificuldades que encontramos e a superação até aquele momento. Foi um período muito difícil'', contou Helena em entrevista, por telefone, à Folha2. O diário, aliado a horas de prosa com a documentarista Carolina Kotscho, rendeu agora uma biografia. Intitulada ''Simplesmente Helena'', o livro de 288 páginas chega às livrarias com o selo da Editora Planeta do Brasil.
A obra é posterior ao filme de sucesso ''Dois filhos de Francisco'', que contou a história dos dois filhos famosos de Helena, mas começou bem antes da produção do trabalho. Ela revela que o livro complementa o longa-metragem no sentido de dar mais detalhes da vida família. ''O filme contou a história de dois filhos. O livro conta a história dos dez'', ressalta. O objetivo de Helena, que durante horas a fio ficou ''proseando'' com a documentaria e também roteirista de ''Dois filhos'' é mostrar às pessoas o valor da união da família.
Para a protagonista da história, o livro é uma grande realização. ''Eu sempre sonhei em lançar essa biografia e tive grande participação do Luciano nisso. Ele me deu muita força nesse projeto''. Na obra, Dona Helena conta, por exemplo, como iniciou o namoro com Francisco. Tudo começou em uma festa de São Benedito, quando ela tinha apenas 14 anos. ''Eu também conto o nascimento de cada um dos meus filhos, mas também falo muito da minha infância. O que mais me toca nessa época é a lembrança da colheita de café, dos meus flertes, dos namorados que eu e minha amigas tínhamos só no pensamento. Porque naquela época namorar era isso, né? O outro nem sabia da gente'', lembra. Mas quando conheceu Francisco, tudo mudou. ''Eu era muito menina e já sabia que ele seria o grande amor da minha vida. Quando nos casamos tinha 16 anos e era muito inexperiente'', destaca.
No livro, ela conta das dificuldades que passou até os filhos conquistarem um lugar ao sol das canções sertanejas. Uma história já conhecida pelos brasileiros que assistiram ao filme, mas relatada de um modo ainda mais particular e com visão materna.
''Depois que o Welson (nome de batismo de Luciano) a situação da gente só fazia mais difícil. Eu dava banho nele no cantinho de uma bacia toda furada e cheia de ferrugem. Lavava meu filho com o mesmo pedaço de sabão em pedra que ainda restava para lavar roupa. Até o arroz já estava faltando. A gente comia só uma papa de mandioca com água. Mas não era sempre que tinha. Parecia que não podia ser pior e só piorava. Tinha dia que quando ele sugava meu peito eu sentia doer minhas costas. Ele sugava e parecia que só saía sangue'', conta em um dos trechos do livro.
Detalhes como este estão na obra, mas Dona Helena avisa que o livro não trata apenas dos dramas familiares. ''O que quero passar para o público, contando essas histórias, é muita força e coragem. Queria que as pessoas soubessem que quando se tem esperança, dignidade e amor, é mais fácil superar os obstáculos''.
Depois de lançar ''Simplesmente Helena'' no Rio de Janeiro e em São Paulo, Helena volta para Goiânia, onde mora atualmente, para aguardar novas datas. Curitiba está na programação, mas ainda não tem data agendada. Quanto a novos projetos, como se o livro pode render mais uma obra cinematográfica, Dona Helena ainda é reticente: ''Ninguém sabe o que vai acontecer...''

- ‘‘Acho que dinheiro só é bom quando a gente esquece que ele existe. Se falta, a gente passa o tempo todo correndo atrás de ganhar algum. Quando sobra, e a pessoa não está acostumada com aquilo, é o dinheiro que fica o tempo todo ocupando a vida dela. Para mim, foi difícil isso tudo que aconteceu tão de repente. Eu estava acostumada a levantar todo dia para trabalhar e buscar dinheiro para que meus filhos tivessem uma vida menos sofrida. Agora eram meus filhos que trabalhavam sem parar, ganhavam muito dinheiro e eu não tinha mais que arrumar a casa e cuidar da roupa deles. Chegou uma hora que eu já não sabia o que estava fazendo nesse mundo’’.

- ‘‘Depois do sequestro (do Wellington) foi que eu descobri que a minha tristeza era doença. Eu fui no médico achando que era um enfraquecimento da cabeça. Mas chama depressão. Tem nome, tratamento e tem remédio. (...) Hoje eu consigo controlar melhor essa dor que eu sempre carreguei comigo. Ela ainda mora aqui dentro, mas não chega mais a tirar a minha alegria e paz que eu conquistei ao lado da minha família.’’

Trechos do livro ‘‘Simplesmente Helena’’, de Helena Camargo.

Serviço:
- Livro ''Simplesmente Helena'', de Carolina Kotscho. Tamanho 16X23 cm, 288 pg. Preço em definição.

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