Um pedaço da história do Brasil está sendo revisitada com o lançamento do livro ''Do Contato ao Confronto - A conquista de Guarapuava no século XVII - hoje , em São Paulo. Junto com o lançamento acontece, às 19 horas, na Fundação Maria Luisa e Oscar Americano (Av.Morumbi, 4.077), a abertura da exposição de um conjunto iconográfico composto de 39 pranchas, com desenhos à base de guache e aquarela, atribuídos a Joaquim José de Miranda. As pranchas ilustram as cenas que remetem à expedição do tenente-coronel português Afonso Botelho de Sampaio e Souza, em 1771, aos Campos de Guarapuava para fazer contato com os índios caiangangues. Com o livro, parte importante da história do Paraná recebe análise apurada através de ensaios de três professores da USP: Nicolau Sevcenko, do Departamento de História; Marta Rosa Amoroso, do Depto de Antropologia e Ana Maria de Moraes Belluzzo, do Depto de História da Arquitetura e Estética.
Sob os pontos de vista histórico, antropológico e cultural são analisadas as expedições de contato que os militares a serviço da Corte Portuguesa empreenderam pelos sertões do Paraná no século XVIII. Ao todo - entre 1768 e 1773 - foram realizadas onze incursões para a conquista de Guarapuava, território então chamado de Campo dos Carrapatos. Os desenhos de Joaquim José de Miranda, que ilustram o livro e integram a exposição que será aberta hoje, referem-se à décima expedição pelos sertões.
Na primeira parte da obra, Nicolau Sevcenko, no texto ''O ciclo de Miranda: utopia indigenista no Brasil pombalino'', analisa os motivos que levaram os portugueses à região então desconhecida, habitada pelos caingangues. A estratégia, empreendida pelo Marquês de Pombal, de ocupação das terras do sul, tinha como objetivo barrar a ameaça de invasão pelos espanhóis depois do Tratado de Madri. Para o marquês, era preciso garantir a ocupação e a ''colonização sistemática das áreas vulneráveis'' do território. Para isso, ele insistia para que ''fossem abolidas todas as diferenças entre portugueses e índios'', de modo que os nativos se transformassem também em agentes colonizadores. Este ponto de vista, conforme demonstra o desenrolar da história, não seria compartilhado pelas autoridades da Capitania de São Paulo, administrada pelo governador D.Luis Antonio de Souza, conhecido como Morgado de Mateus. Ao entrar no território indígena, as expedições paulistas substituiriam a conduta ''amigável'' pela idéia de que os selvagens não poderiam ser colonizados senão pela força bruta. A política indigenista de Pombal gerava conflitos entre ele e as autoridades das capitanias do sul e a colonização dos territórios através de uma articulação de confiança com as populações nativas foi sendo substituída por ações militares que enxergavam no contato a possibilidade de explorar o trabalho dos índios de forma servil.
Já no ensaio antropológico de Marta Rosa Amoroso - ''Guerra e Mercadorias: os Kaingangs nas cenas da conquista de Guarapuava'' - destaca-se a leitura do fascínio que as mercadorias dos brancos exerceram sobre os caingangues. A análise das pranchas desenhadas por Joaquim José de Miranda em 1771 demonstra, segundo ela, ''o interesse dos índios pelas vestimentas, armamentos e técnicas dos europeus, ao mesmo tempo em que introduzem o tema da guerra dos índios contra os estrangeiros''. Chamados pelas tropas de Sampaio e Sousa de Xaklan, os caingangues, segundo relatos históricos, figuravam como os principais protagonistas dos contatos que transcorreram no Paraná. Marta Rosa Amoroso, chama a atenção para o fato de que os estrangeiros incursionavam sempre em menor número pelo território caingangue, sendo observados pelos índios a cada movimento. Em 1770, os índios aproximaram-se das tropas expedicionárias, oferecendo seus arcos e flechas aos soldados que fugiram apavorados. A estranheza mútua entre as duas civilizações demoraria a ceder a um contato mais próximo. Entre os 39 desenhos de Miranda, de 1771, só na cena 30 os índios finalmente entram no acampamento militar armado no rio Jordão. Lá, são recebidos com honras e, pelos relatos, ''uma índia de 16 anos é vestida à moda européia e depois conduzida para ser catequizada pelo Frei Antonio Teresa do Espírito Santo''. Na recepção, à moda imperial, os escravos negros da expedição tocam clarins para receber os índios. Uma reciprocidade que dois anos mais tarde, em 1772, cederia ao pânico, quando os caingangues do Tibagi desenterram os corpos dos soldados mortos numa emboscada. A violação dos cadáveres é entendida pelos brancos como afronta máxima aos princípios católicos e vista como ''prova de má e bárbara fereza dos kaingang''. A política de paz, empreendida pelo Marquês do Pombal, vai caindo por terra à medida em que a história dos primeiros contatos transformava-se em sangrenta experiência de sucessivas guerras. Hoje, a nação caingangue no Brasil resume-se a 25 mil índios, demonstrando que o embate resultou na redução das populações nativas ao longo séculos, tendo os conflitos no sul resultado em ações que não podem ser chamadas de civilizatórias.
No ensaio de Ana Maria de Moraes Belluzzo, ''Desenho e conquista territorial'', desdobram-se as análises dos desenhos atribuídos a Joaquim José de Miranda. É importante esclarecer, que as pranchas de Miranda, segundo os estudiosos, foram feitas posteriormente aos contatos e embates no território dos caingangues. Tudo leva a crer, que o ilustrador baseou seus desenhos em relatos feitos pelos soldados que tomaram parte da expedição. Nas pranchas, Ana Maria de Moraes Belluzzo chama a atenção para a ''disjunção entre os elementos paisagísticos e os personagens''. Também destaca que os índios figuram como ''objeto de ação civilizatória'' e que ''apresentação de duplas (índio e soldado em cena) remete, em certos aspectos, à tradição nórdica da gravura da época das conquistas''. As cenas se desenrolam com índios fazendo contatos com os soldados nos acampamentos e pintados para a guerra, enquanto os canhões dos brancos aparecem encobertos. Diz a estudiosa, que a obra é bastante heterogênea, mas ''a narrativa visual lembra o sermão ilustrado, do pensamento moralizante, de tradição religiosa''. Ela ainda chama a atenção para o fato de que o ''tratamento das figuras é um modo de personificar a ação teatral e tira especial proveito do ato de vestir/desvestir... o trajar é em si um ato de valorização''. Na verdade, as ilustrações sempre remetem a um conteúdo simbólico articulado com o discurso colonizador do artista em que são valorizadas as roupas e, especialmente, os uniformes militares.
Nos três ensaios do livro, o que sobressai é a reconstituição da ocupação do território caingangue com a política de aproximação pacifista sendo substituída, ou permanentemente camuflada, por ações de invasão sangrenta dos territórios indígenas do sul. No ensaio antropológico de Marta Rosa Amoroso, um trecho condensa a história da colonização ao ressaltar que a linguagem inicial de ''mimos e contatos'' cedeu à ''linguagem da violência que colocou em ameaça aqueles que atenderam aos apelos do projeto colonizador, e se aproximaram excessivamente dos brancos''. O triste desfecho todos conhecem, com tribos reduzidas, sem referência de seus valores culturais, sobrevivendo na miséria, dizimadas pelo alcoolismo, doenças e fome.
As 39 pranchas de Joaquim José de Miranda que ilustram o livro integram, a partir de hoje, a exposição na Fundação Maria Luisa e Oscar Americano em São Paulo. A série faz parte da Coleção Beatriz e Mário Pimenta de Camargo e foi adquirida pelo casal de colecionadores em 1985, num leilão internacional. A exposição fica aberta ao público de 26 de novembro a 14 de dezembro, a abertura hoje é para convidados. Os ingressos para a mostra custam R$ 8,00 e R$ 4,00, para estudantes e maiores de 60 anos.

Serviço:
A obra ''Do Contato ao Confronto - a conquista de Guarapuava no século XVIII'', tem edição bilíngue (português/francês) e tiragem de 4 mil exemplares , sendo 1000 distribuídos gratuitamente para bibliotecas e centros culturais. A coordenação editorial é da Expomus - Exposições, Museus, Projetos Culturais, Ltda (Maria Ignez Mantovani Franco e Marcia Arcuri), com projeto gráfico da Catavento Design Gráfico (Regina Cassimiro). O livro, de 143 páginas, foi patrocinado pelo Banco BNP Paribas do Brasil.

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