Livro virtual divide opiniões
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terça-feira, 29 de agosto de 2000
Cristian Klein Agência Folha 
Qual o futuro do livro na era eletrônica? A resposta dividiu os debatedores do assunto, anteontem, na Academia Brasileira de Letras (ABL), no centro do Rio.
O escritor Carlos Heitor Cony apontou o livro virtual como uma etapa natural da evolução tecnológica. No princípio, escrevia-se em pedra, em peles de animais, em papiros. O livro impresso como conhecemos desde Gutemberg não está superado. Mas vai se tornar artesanal, uma evidência do estágio de conhecimento do nosso mundo, disse.
A escritora Lygia Fagundes Telles, por outro lado, lembrou que uma tecnologia não substitui a outra. São ameaças antigas. Essas mortes anunciadas não acontecem. Diziam que o fim do cinema estava próximo quando criaram a televisão. O rádio continua até hoje, disse.
O debate, parte do seminário internacional O Lugar do Livro: Entre a Nação e o Mundo, contou também com o cartunista Ziraldo e com a professora Nízia Villaça, da Escola de Comunicação da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).
O cartunista Ziraldo defendeu a idéia de que o formato do livro, como objeto, é eterno. Mesmo que predomine o livro virtual. O ato de ler e virar uma página reproduz a própria vida, com a noção de tempo e espaço. Quando lemos um texto, estamos diante do espaço; quando viramos a página, observamos o tempo.
Carlos Heitor Cony vislumbrou a possibilidade de, num futuro próximo, podermos acessar um livro eletrônico de não apenas dez volumes, como é possível atualmente, mas toda a biblioteca humana, por meio de um livro virtual da espessura de uma folha de papel.
Cony relativizou a questão da materialidade do livro. Não podemos esquecer que Sócrates e Jesus Cristo não deixaram nada escrito em livros. Seus seguidores é que difundiram suas idéias. No entanto, eles não deixam de ser fundadores do pensamento universal, disse.
Ziraldo mencionou uma estimativa de que o Brasil teria, atualmente, 6 milhões de internautas. Mas ressaltou o sucesso de vendas que vem fazendo, em todo o mundo, o livro infantil Harry Potter, da escritora escocesa J.K. Rowling.
A professora Nízia Villaça, autora de uma tese sobre o livro eletrônico, referiu-se a três mitos que estariam ligados à dicotomia livro impresso versus livro virtual: o mito de Robson Crusoé, em torno da necessidade da organização do mundo e do discurso ordenado; o mito de Babel, que encerra a resistência à tradição da escritura; o mito de Frankenstein, a respeito do dilema homem versus máquina. Mesmo com a facilidade de manipulaçção, armazenamento e interatividade, o e-book (o livro eletrônico) é uma interrogação.
Lygia Fagundes Telles disse que continua acreditando no livro impresso. Acredito na imortalidade da alma e na do livro. Como dizia Guimarães Rosa, devagar já é pressa, citou.
O seminário internacional, organizado pela Unesco e pela Fundação Biblioteca Nacional, termina hoje. O destaque deste último dia é o sociólogo francês Michel Maffesoli.


