São Paulo, 17 (AE) - A aventura tropical do alemão Johann Moritz Rugendas (1802-1858) acaba de ganhar um livro com obras e documentos sobre o pintor viajante cujo nome é associado à desastrosa "Expedição Langsdorff, A América de Rugendas" (167 páginas, Estação Liberdade/Livraria Kosmos Editora). O autores são o historiador chileno Pablo Diener, que assinou há dois anos o livro "Rugendas", publicado pelo Conselho de Empresários da América Latina, e a historiadora Maria Fátima Costa, que publicou recentemente "História de um País Inexistente: O Pantanal entre os Séculos 16 e 18 (Estação Liberdade).
Os dois pesquisam a vida dos viajantes ilustres que visitaram a América em séculos passados. Já publicaram juntos "Artistas Alemães e Brasileiros refazem a Expedição Langsdorff" (Estação Liberdade, 1995). Esse livro e a publicação do catalogue raisoné de Rugendas há dois anos, pela Wissner Verlag, só foram possíveis graças à participação do Instituto Goethe num projeto que deveria ter trazido a São Paulo
em setembro do ano passado, a mais espetacular mostra já organizada da obra de Rugendas, apresentada em 1998 no Museu de Belas Artes de Santiago do Chile. Condições econômicas desfavoráveis no Brasil cancelaram a exposição em São Paulo na última hora. Epílogo - O livro "A América de Rugendas" representa, segundo o diretor do Instituto Goethe em São Paulo, Bruno Fischli, o epílogo desse longo projeto, que refez, inclusive, o roteiro da Expedição Langsdorff, tendo como protagonistas artistas contemporâneos brasileiros. Além de documentos, desenhos e óleos inéditos do pintor alemão, o livro traz cartas de Rugendas recentemente descobertas em Munique e Hamburgo. Há desenhos oriundos da coleção do empresário paulista José Mindlin e de sua mulher Guita e obras provenientes da coleção dos príncipes de Thurn und Taxis.
Como lembram os autores, qualquer criança em idade escolar já viu na vida uma gravura de Rugendas. É por intermédio de sua obra e das gravuras de Debret que os escolares descobrem como viviam os escravos brasileiros e seus senhores. Curiosamente, Rugendas revela numa carta à irmã Louise, em 1832, que não gostava de pintar. Rugendas tinha, então, 30 anos. Estava na Cidade do México e, como afirmam os autores, esse comentário não era retórico. Rugendas, de fato, pouco tinha pintado até aquela data.
A formação do artista alemão era a de desenhista. Um bom desenhista, como comprova o livro "Viagem Pitoresca através do Brasil", publicado na França em 1827 e grande sucesso na luxuosa versão fac-similar colocada à venda aqui, em 1987, pela Livraria Kosmos. Os documentos de Rugendas são pouco reveladores sobre sua obra. De qualquer modo, o livro traz alguns curiosos, como o contrato de trabalho do artista alemão com o barão Langsdorff, encarregado pelo Império Russo de uma expedição científica pelo sertão brasileiro. Assinado em 1821, o contrato exigia de Rugendas um "devido comportamento moral", além de sugerir que permitisse ao chefe da expedição acesso a seu diário. Rugendas não seguiu Langsdorff. Preferiu empreender viagem sozinho por Minas e São Paulo. A expedição terminou com Langsdorff enlouquecido. Todo o material recolhido foi remetido à Rússia.
Se os documentos não dizem muita coisa, os desenhos da coleção Mindlin permitem, ao contrário, traçar uma curiosa relação entre o modo de olhar de Rugendas e o de nossos pintores modernistas. Um desenho da Vila Nova da Imperatriz, em Minas Gerais, em 1824, poderia perfeitamente ser assinado por Guignard sem que os especialistas notassem muitas diferenças entre os autores, a despeito da distância de um século. Tarsila do Amaral deve ter visto muitas reproduções de Rugendas, a julgar pelo traço sintético com que construía seus coqueiros modernos.
A destreza de Rugendas com o lápis é espantosa, mas sua pintura é meramente cenográfica, como comprova o óleo sobre papel "Alegoria da Revolução" (1846-1848), que mostra Anita Garibaldi como redentora, de espada na mão direita e bandeira vermelha na outra. Não é possível afirmar se Rugendas conheceu ou não Anita, mas a jovem gurreira brasileira, companheira de Garibaldi, surge como heroína com seu lenço farroupilha sobre a terra devastada, como se fosse a liberdade de Delacroix guiando o povo.
Esse estilo duro e acadêmico, típico da pintura alemã da época, não o torna menos interessante que o neoclássico Debret. Como Pablo Diener já observou, o tema paisagístico não induziu Rugendas a uma expressão mais subjetiva da natureza, que só fez obras sob a tutela do naturalismo. Drama frio - De qualquer forma, o olhar debretiano sobre o Brasil parece mais envolvente. Rugendas também retratou a humilhação pública com palmatória, brigas entre escravos e açoitamento em praças públicas, mas o sofrimento dos negros, segundo Debret, comove mais. Debret percebeu no país da casa grande que o coração dos senhores era pequeno demais para ver o que suas aquarelas mostram: a condição humana dos escravos. Algo mudou no País?
A resposta é previsível. A posição política de Rugendas, fundamentalmente liberal, é a mesma que ampliou a senzala e isolou a casa grande. Rugendas, que precisava do dinheiro da corte brasileira, passou ao largo dos republicanos, como lembram os historiadores autores do livro. Protegido do rei Ludwig da Baviera, o mesmo explorado por Wagner e retratado no filme de Visconti, também fez vista grossa à loucuras reais para receber uma pensão em troca de seus mais de 3 mil desenhos americanos.
Rugendas visitou o Brasil duas vezes. Na primeira, em 1821, retratou a natureza exuberante, a vida cotidiana dos índios e cenas urbanas com escravos. Na segunda, em 1845, os tipos populares foram substituídos por aristocratas. Rugendas, burguês liberal que se insurgiu contra o nobre Langsdorff, queria apenas ser o ilustrador do Novo Mundo. Conseguiu.

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