São Paulo, 26 (AE) - A publicação da "Correspondência Incompleta" (coleção Documentos Íntimos, editora Aeroplano, 314 páginas, R$ 34,00) da poetisa Ana Cristina César (1952-1983) vem comprovar o que seus leitores mais perspicazes certamente já tinham notado: a poesia de Ana C., como assinava, era sua correspondência com o mundo. Seus poemas - breves, tantas vezes telegráficos, outra vezes taquicárdicos, urbanos e elétricos como se de um álvaro de Campos de fim de século - seduzem o leitor por sua linguagem direta, convidando à intimidade: como numa carta.
Assim, as cartas que Ana escreveu para quatro amigas, três delas suas ex-professoras universitárias - Heloisa Buarque de Hollanda (organizadora do livro, ao lado de Armando Freitas Filho), Clara Alvim, Cecília Londres - e Ana Candida Perez, com quem assinou várias traduções literárias, são como que o rascunho de muitos poemas.
"Escrever cartas é mais misterioso do que se pensa. Na prática da correspondência pessoal, supostamente tudo é muito simples. Não há um narrador fictício, nem lugar para fingimentos literários, nem para o domínio imperioso das palavras. Diante do papel fino da carta, seríamos nós mesmos, com toda a possível sinceridade verbal: o eu da carta corresponderia, por princípio, ao eu verdadeiro, à espera de correspondente réplica. No entanto, quem se debruçar com mais atenção sobre essa prática perceberá suas tortuosidades. A limpidez da sinceridade nos engana, como engana a superfície tranquila do eu", escreveu a própria Ana em "O Poeta É um Fingidor", artigo sobre a correspondência de álvares de Azevedo publicado no suplemento Livros do Jornal do Brasil em 30 de julho de 1977 e reproduzido agora em "Crítica e Tradução" (organização de Armando Freitas Filho, Editora ática/Instituto Moreira Salles, 464 págs., R$ 34 90), lançado em outubro.
São duas as Anas que se apresentam - uma, a das cartas e dos poemas; a outra, dos textos críticos. Nestes, que não mostram a brevidade e a linguagem muitas vezes elíptica de seus escritos literários, embora não deixem de ser diretos e precisos
pode-se observar seu brilhantismo ensaístico, seu extremo rigor
sua requintada cultura acadêmica, seu perfeccionismo como tradutora.
A matéria-prima - Inteiramente ligadas ao dia-a-dia, principalmente do período em que viveu na Inglaterra para um curso de mestrado em teoria e prática da tradução literária na Universidade de Essex, entre 1976 e 1980, as cartas, que mostram uma jovem às voltas com dúvidas quanto ao futuro, namorados, casamento, um pouco de política, estilo de vestir-se, viagens e, claro, literatura, servem para mostrar a um leitor atento a sutilezas como ela conseguia extrair de debaixo da pele do cotidiano a matéria-prima de seus versos.
Como observa o amigo e também poeta Armando Freitas Filho: "Em muitos e extensos momentos dessa correspondência, ouvimos trechos de sua dicção poética tão peculiar; verdadeiros exercícios prévios do que mais tarde ela iria transportar para os seus textos literários." E acrescenta: "Em certas cartas e cartões temos a sensação de que, se suprimíssemos o destinatário e o remetente, estaríamos lendo alguns de seus poemas."
Não se deve, contudo, esperar confissões, revelações e muito menos explicações para seu suicídio, em 29 de outubro de 1983, quando tinha apenas 31 anos. Além de não abranger seus últimos três anos de vida e, portanto, não dar notícia de sua depressão, a correspondência, por não ser autorizada, passou por cortes. "Foram cortados apenas os trechos que, segundo o ponto de vista das destinatárias e o nosso, pudessem causar constrangimento para as pessoas citadas e respectivas famílias"
explicam os organizadores.
A idéia de publicar a "Correspondência Incompleta" - título inspirado num dos livrinhos caseiros feitos por Ana C., "Correspondência Completa", depois reproduzido em "A Teus Pés" - nasceu de um pedido de Ítalo Moriconi, quando ele escrevia a biografia da poetisa, já publicada na coleção Perfis do Rio (Relume Dumará/Secretaria Municipal de Cultura do Rio).
Moriconi procurou Heloisa para perguntar se ela sabia onde achar cartas de Ana C., mas ela mesma havia guardado poucas. Pouco tempo depois, resolveu procurar as pessoas a quem Ana tinha escrito, com Armando Freitas Filho, e juntos levaram dois anos preparando o livro, que também traz cartões-postais, desenhos e fotos da poetisa, os depoimentos das destinatárias sobre sua amizade com ela e uma cronologia de sua vida feita pelo pai, Waldo César. Freitas Filho, aliás, é curador do acervo de Ana C., doado em outubro, por ocasião do lançamento de "Correspondência Incompleta", ao Instituto Moreira Salles, no Rio, pela família dela. Ele foi encarregado pela própria Ana de cuidar de seus manuscritos "caso alguma coisa acontecesse", quando ela viajou para a Inglaterra.
Mas por que a correspondência se restringe a um período de apenas quatro anos? "Ela escreveu muito aos amigos nessa viagem que fez à Inglaterra; depois, quando voltou ao Brasil, quase não escreveu mais cartas, já que estava perto deles", explica Heloisa. A editora, que pretende, ainda, promover o lançamento desse livro em São Paulo, Minas e Rio Grande do Sul, acrescenta que há poucas cartas para outros destinatários depois desse período.
Sofisticação - Figura de destaque na geração de poetas dos anos 70, Ana C. "iluminou muito a produção feminina" dessa época, nas palavras de Heloisa. "Naquele momento, o trabalho dela teve uma repercussão gigantesca e houve a descoberta de uma dicção", comenta. "Além disso, era muito sofisticada, muito talentosa; ela esculpia seus versos, que são extraordinariamente ricos; era tudo muito cuidado", continua. "Esse não era exatamente o tom dos poetas dos anos 70, mais coloquiais e desarmados que Ana C."
Foi Heloisa quem primeiro publicou os poemas de Ana, incluindo-os na antologia "26 Poetas Hoje", em 1976. Depois, foi a responsável pelo projeto gráfico e pela supervisão editorial dos primeiros livros da poetisa, preciosas edições independentes que estão no acervo do IMS, além de sua orientadora de mestrado.
Heloisa ressalta o caráter de permanência do trabalho de Ana, citando o frequente interesse editorial por sua obra, tanto que a Editora ática já relançou seus livros "A Teus Pés" e "Inéditos e Dispersos" (originalmente publicados pela Brasiliense), além do já citado "Crítica e Tradução", que reúne resenhas e artigos críticos sobre literatura e cinema, publicados em vários jornais, a tradução anotada do conto Bliss, de Katherine Mansfield, e traduções inéditas de Emily Dickinson e Sylvia Plath, anteriormente publicados nos volumes "Escritos no Rio, Escritos da Inglaterra" e "Literatura não É Documento". Seus livros e poemas também já foram publicados na Alemanha, na França, na Inglaterra, nos Estados Unidos, na Colômbia, na Venezuela e na Argentina.
A editora Aeroplano foi fundada em dezembro por Heloisa, que é também ensaísta e professora de crítica da cultura na Universidade Federal do Rio de Janeiro, e já tem no mercado os livros "Esses Poetas/ Uma Antologia dos Anos 90" e a reedição de "26 Poetas Hoje", ambos da própria Heloisa, "A Arquitetura Moderna no Brasil", de Henrique Mindlin, e "O Processo do Cinema Novo" de Alex Vianny, organizado por José Carlos Avelar, que está sendo lançado no Festival de Brasília. Segundo Heloisa, o segundo título da coleção Documentos Íntimos deverá ser o das cartas de Caio Fernando Abreu, que já está em preparação.

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