Se muitos conhecem Ofélia Queiroz, a quem foi destinada a maior parte das cartas de amor de Fernanda Pessoa, poucos sabem que no fim da vida Pessoa se apaixonou por uma inglesa loira e misteriosa, Madge Anderson, com quem também trocou missivas. Em abril, a coleção "Pessoa na Tinta-da-China Brasil" ganha um novo volume, com organização, edição e apresentação de Jerónimo Pizarro, o maior especialista nos manuscritos de Fernando Pessoa.

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Em "Cartas de Amor", de Fernando Pessoa, Pizzaro revisa datas, atualiza a grafia, situa as cartas na vida e obra de Fernando Pessoa e reúne novas pistas e documentos, como os poemas que integraram o epistolário amoroso, fac-símiles e fotos. A mais completa edição das cartas de amor. A obra chega às livrarias em formato de álbum visual.

Na publicação, Pessoa se envolve por vezes em intrigas e desconfiança, dá algumas desculpas esfarrapadas — “não foi por culpa minha, mas do meu sono, que faltei à combinação” —, vale-se de diminutivos e, por vezes, até emula uma vozinha de bebê.

A poesia vai se mostrando nas cartas, em figuras de linguagem como a metáfora e a hipérbole, além de repetições e de um ritmo bem trabalhado. Surgem charadas, apelidos carinhosos que Pessoa e Ofélia — sua namorada, que ele conheceu na empresa de sua família, onde ela trabalhava como secretária —, usavam um com o outro e também para partes do corpo. Ofélia é “íbis”, “nininha”, ou às vezes uma “vespa”, uma “víbora”; seus seios são chamados de “pombinhos”, e os “beijinhos” são “jinhos”.

Fernando Pessoa: além de seu romance com Ofélia de Queiroz, autor teve uma relação amorosa com a inglesa Madge Anderson com quem trocou cartas
Fernando Pessoa: além de seu romance com Ofélia de Queiroz, autor teve uma relação amorosa com a inglesa Madge Anderson com quem trocou cartas | Foto: Wikimedia Commons

“Pessoa queria ser plural como o universo, e é isso que hoje se verifica: a sua maior pluralização, acompanhada de uma maior universalização. Assim, esta edição procura fornecer um conjunto de textos cuidadosamente estabelecidos, dedicadamente anotados, que renovem e multipliquem os estudos pessoanos, ou seja, estudos sobre Pessoa, mas também da multidão de pessoas que os fazem”, defende Pizzaro, organizador da obra.

Notamos nos textos as voltas de linguagem típicas do autor de “Autopsicografia”: “Como não quero que diga que eu não lhe escrevi, por efetivamente não lhe ter escrito, estou escrevendo”. Os heterônimos também aparecem como personagens das conversas. “Todas as cartas de amor são ridículas”, sentenciou Álvaro de Campos em um de seus poemas, provavelmente depois de ter se intrometido na correspondência entre Pessoa e Ofélia. Vemos Pessoa escrevendo para Ofélia com bom humor, mas também mostrando-se hipocondríaco, dramático e um tanto autocentrado, dedicado a um propósito maior (a escrita), subordinado “à obediência a Mestres que não permitem nem perdoam”.

Como Einstein e Kafka, Pessoa é o mesmo tipo de gênio, que em algumas das cartas reunidas neste volume coloca a escrita como objetivo principal da vida e a possibilidade do casamento como um entrave.

Rascunho datado de carta de Fernando Pessoa para Madge Anderson
Rascunho datado de carta de Fernando Pessoa para Madge Anderson | Foto: Divulgação

Quando chegamos às cartas de Madge Anderson — uma advogada —, no fim do volume, vemos finalmente uma mulher colocando-o na linha ao chamá-lo de “velho tonto dramático”.

* Com assessoria.

Imagem ilustrativa da imagem Livro traz cartas de amor inéditas de Fernando Pessoa
| Foto: Divulgação

SERVIÇO

"Cartas de amor"

Autor: Fernando Pessoa

Organização e apresentação: Jerónimo Pizarro

Coleção: Fernando Pessoa

Editora: Tinta-da-China Brasil

Páginas: 208

Preço: R$74,90

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