LIVRO TRAÇA A HISTÓRIA DO RACISMO
Escrevo para a espiritualidade, define-se o escritor Luís Carlos de Santana, paulista de 41 anos, que assina Luís Fulano de Tal. Ele esteve em Londrina no último dia 23 para ministrar uma palestra na Universidade Estadual de Londrina (UEL). O tema compreendia dois dos seus assuntos prediletos: literatura e história.
Fulano de Tal, que prefere preservar sua identidade verdadeira, escreveu um dos livros mais elogiados nos últimos anos pelos acadêmicos brasileiros, A Noite dos Cristais. Uma discussão prazerosamente desenvolvida por um potencial verbal incomum. Seu tema? O racismo imperante no longínquo Brasil colonial do início do século 19. Um Brasil que ainda parece existir, observa o escritor, também fã dos grandes da literatura africana, como Ameé Cesaire e Edouard Glissan.
A idéia para o romance surgiu de um desejo antigo que pretende unicamente descobrir a tão polêmica identidade brasileira. Ela existe mesmo, dentro de uma diversidade cultural tão rica e cheia de influências? Sim, a nossa identidade é essa multiplicidade garante. Estimulado pelas aulas de francês quando cursava Letras na Universidade de São Paulo (USP), Fulano de Tal se aprofundou no estudo de seus ascendentes mais próximos, os africanos importados sob o signo da escravidão. Uma ressalva do escritor esclarece qual a sua visão sobre o tema: Eles não eram escravos; foram escravizados diferencia.
A curiosidade e o rígido estudo os levaram a um movimento libertino que eclodiu na Bahia de janeiro de 1835, a Revolta dos Malês. Uma insurreição muçulmana organizada por um grupo de africanos ainda remanescentes do período em que os árabes conquistaram o norte da África. Fulano de Tal se aprofundou nos detalhes históricos o que se evidencia na considerável lista de referências bibliográficas no final do livro e juntou à essa veracidade dos fatos uma de suas irmãs mais bem vindas, a ficção. Essa fórmula, quase-verdade, quase-ficção, imprime ao estilo de Fulano de Tal um ímpeto obsessivo extremamente caro aos grandes escritores. Seu estilo, direto, pungente e ríspido dissolve-se como um soco no estômago, como quem ironicamente sentencia: a arte para que a verdade não nos destrua (Nietzsche).
Sua influência é a vida, e literatura, para ele, não tem que ser agradável, tem que suscitar polêmicas. Os editores são papa-defuntos só publicam autores mortos, para não pagarem direitos autorais e a situação do País, só tende a piorar com a globalização. O racismo diminuiu em relação ao século 19? Não, continua tão intenso quanto era, pois racismo é uma questão social, de dinheiro. Esse tom aparentemente pessimista pode caracterizar um escritor mal-humorado, sem esperanças, em um desolamento sem saída. Mas não. Fulano de Tal apresenta um carisma próprio dos rebeldes convictos de que a liberdade é distante, mas não inatingível.
Esse seu primeiro livro, A Noite dos Cristais, foi escrito em 1994, e só publicado em 9 de setembro de 1999, precisa o escritor. Apesar dos elogios dos acadêmicos, Fulano de Tal recorda o descrédito da editora da USP, a EDUSP: Fui premiado no Projeto Nascente, recebi o prêmio Orígenes Lessa (da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil) e meu livro é recomendado pelo MEC. Tudo isso não bastou para ser publicado. O professor Alfredo Bosi o considerou promissor, para ele o trabalho da linguagem é um prazeroso dever; Maria De La Concepción Piñero Valverde ressaltou o vocabulário rico e preciso, um trabalho de poderosa fantasia e excelente domínio da linguagem escrita; enquanto concluiu Hudimilsom Urbano, obra digna de publicação... e, sobretudo, de leitura. Mesmo com todos esses elogios de peso, somente a editora 34 que, felizmente para os leitores, vem se arriscando no mercado editorial ao apresentar novos autores, acreditou no projeto.
A Noite dos Cristais relata a trajetória de um estudante de francês que resolve se aprofundar na língua de Proust em Caiena, capital da Guiana. Lá encontra o manuscrito quase indecifrável de um ex-escravo, Gonçalo Santana, que compila as aventuras da sua vida. Descobre então como se organizou a Revolta dos Malês e passa a vivenciar a história de maneira radical. Seria esse jovem estudante um alter ego? Todo livro é alter ego sintetiza Fulano de tal, ao se mostrar adepto da tese de que se expressa o que se é, inevitavelmente.
O tom informal do livro, mas nunca supérfluo, é o mesmo que o autor exibe em uma conversa. Descontraído, propenso a discussões ideais e intermináveis, Fulano de Tal revela-se um escritor já verdadeiro, que se incumbiu da árdua e terrível missão de incondicionalmente se autodescobrir. Um pouco pela história de seus ascendentes, um pouco pelo relato trágico da mentalidade de seu País. Muito pela obsessão ao relato do que ocorreu, do que continua a ocorrer, e do que deve, infelizmente, vir a catalisar um trágico fim do homem. A Noite dos Cristais é sim mais uma noite da humanidade, triste e só, conforme o nosso trajeto. Sem concessões, conforme o escitor.
ReproduçãoTRECHOS DO LIVRO





