Livro sobre Nelson Rodrigues investiga todas as suas obras trágicas
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segunda-feira, 09 de abril de 2007
Ubiratan Brasil<br> Agência Estado 
São Paulo - Ao abrir o livro ''Nelson Rodrigues: O Inferno de Todos Nós'' (Junqueira&Marin Editores), da pesquisadora Carla Souto, o leitor se depara com uma dedicatória curiosa: ''Aos meus pais, casal de uma felicidade recíproca e total.'' A frase perde seu caráter corriqueiro quando o mesmo leitor termina a última página, encerrando uma absorvente análise sobre a importância, na obra de Nelson Rodrigues, das relações familiares, universo ficcional que atravessa as fronteiras convencionais do gênero e cria uma tragédia genuinamente nacional.
O livro, lançado no último sábado, no Teatro Júlia Bergmann, espaço com o qual tem uma íntima relação - ali, está em cartaz a peça ''17 x Nelson'', com o grupo AntiKatártiKa Teatral, que se inspirou no trabalho de Carla para montar o trabalho, uma coletânea de cenas de todas as 17 peças de Nelson Rodrigues. ''Ela e suas pesquisas nos mostraram que, subvertendo os signos clássicos da tragédia e lançando-os dentro da família brasileira, Nelson Rodrigues tornou-os universais'', comenta Nelson Baskerville, diretor da AntiKatártiKa.
A pesquisadora decidiu investigar todas as peças trágicas do dramaturgo, desde as primeiras, como ''Álbum de Família'' e ''Anjo Negro'', até a última, ''A Serpente''. Seu foco era o tema da família neste universo. Carla partiu do pressuposto de que há, na cultura brasileira, uma recusa quase constante ao trágico. Apesar do convívio cotidiano com exemplos contemporâneos do trágico, o brasileiro prefere se ver sob outra ótica.
''No Brasil, não havia tragédia no teatro, então o dramaturgo se propõe a criá-la com a nossa cara'', escreve ela. ''Seu fascínio pelo clássico mexe mais profundamente nos questionamentos humanos.'' Assim, Carla começou estudando as personagens das peças, homens e mulheres que ''não podem alcançar a felicidade por causa de uma castração que sofrem, uma amputação que lhes retira uma parte que seria essencial à sua integridade física ou moral''. Incompletas, essas personagens são incapazes de atingir a realização, tendendo assim para o caminho inevitável da tragédia.
A partir desse raciocínio, Carla percebeu que tudo apontava para um estudo da construção das famílias trágicas. ''A importância do tema cresce ainda mais quando nos deparamos com uma sociedade individualista, que não permite muita franqueza e tampouco demonstrações de fragilidade'', aponta. ''O grupo familiar, embora se afigure como o único local seguro para o sujeito, ao mesmo tempo em que abriga é fonte de sofrimentos.''
Carla observa que a formação da família nas tragédias de Nelson é alicerçada por silêncios e negações, com atitudes encadeadas sem nenhum processo de reflexão. ''Desde seu início, apresenta lacunas que acabam sendo preenchidas de modo completamente improvisado pelos sentimentos que vão surgindo sem poder ser controlados.''
A pesquisadora aponta também a idéia que o dramaturgo tinha de grupo familiar, utilizando desde um modelo patriarcal, que representava uma parcela da cultura escravocrata e latifundiária rural do nordeste do País, até as várias formas e desenhos atuais, em que ocorreu a diluição de um padrão tradicional, embora ele ainda persista com vários outros padrões. Nelson conseguia mostrar que modernidade e tragédia não são incompatíveis, pois o conflito está na relação com o outro, o que o torna eterno e insolúvel. O título do livro foi retirado de uma coletânea das mil melhores frases de Nelson Rodrigues, em que o autor declara que ''a família é o inferno de todos nós''.


