Um desvario laborioso e empobrecedor, cheios de tipos psicologicamente anormais e desfechos previsíveis - assim Jorge Luis Borges (1899-1986) avaliava os romances em geral, justificando sua preferência por narrativas curtas. A paixão pela escrita, no entanto, era soberana, assim como a admiração e até devoção por outros autores, como comprova ''Ensaio Autobiográfico'' (tradução de Maria Carolina de Araujo e Jorge Schwartz), que a Companhia das Letras lançou recentemente em nova edição.
Trata-se de um texto que Borges ditou em inglês a seu colaborador e tradutor Norman Thomas di Giovanni, nos primeiros meses de 1970, e que serviria como uma breve introdução à edição norte-americana de ''The Aleph and Other Stories''. Acabou lançado antes, em setembro daquele ano, na revista ''The New Yorker'', o que apressou a divulgação do nome do escritor entre o público de língua inglesa.
No sentido contrário ao de sua preferência por textos enxutos, Borges, aqui, alonga-se ao narrar fatos de sua vida, desde o nascimento até aquele momento quando, então com 71 anos, revelava-se disposto a voltar aos textos despojados depois de ganhar fama mundial graças a exercícios estilísticos, especialmente nos contos. Embora confessional, o texto é recatado em alguns assuntos, especialmente os sentimentais - em 1970, Borges estava casado com a também escritora Estela Canto, mas prestes a se separar. O matrimônio, porém, é brevemente citado no livro e, mesmo assim, não é lembrado em nenhum momento o nome de Estela.
Nas páginas, o autor argentino fala de sua infância, da avó inglesa (que está na origem do seu domínio daquele idioma), da juventude passada em várias cidades europeias (especialmente em Genebra), do retorno a Buenos Aires, dos amigos, do emprego como bibliotecário, do entrevero com os peronistas, da demissão.
O relato traça rápidas pinceladas das origens de seus pais, de sua infância quase isolada no mundo, das experiências nada agradáveis na escola (como usava óculos, colarinho e gravata, ele sofria com as zombarias da maioria dos colegas, aprendizes de valentões) até chegar finalmente àquele que ele mesmo chama de ''evento principal'' de sua vida: a descoberta da grande biblioteca do pai - o advogado e professor de psicologia Jorge Guillermo Borges, que buscou também tornar-se escritor -, da qual confessa, já idoso, ''nunca ter saído''.

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