Livro reúne textos raros de Pierre Verger
Ensaios escritos pelo etnógrafo são inéditos em português e foram produzidos entre 1950 e início dos anos 80
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 21 de julho de 2026
Ensaios escritos pelo etnógrafo são inéditos em português e foram produzidos entre 1950 e início dos anos 80

Em parceria, instituto Çarê e Fundação Pierre Verger publicam ensaios escritos pelo etnógrafo entre os anos 1950 e 1980. O livro será lançado em agosto, em Salvador, e em setembro, em São Paulo, com conversas com os pesquisadores Angela Lühning, Angela Fileno e Tiganá Santana
"Iorubahia – Escritos Raros Sobre a Cultura Iorubá e as Relações Entre Brasil e Golfo do Benim" (Letra da Cidade/Fundação Pierre Verger, 2026) reúne doze textos de Pierre Fatumbi Verger (1902-1996), boa parte inédita em português, produzidos entre o fim dos anos 1950 e o início dos anos 1980.
Parceria com a Fundação Pierre Verger, Iorubahia é uma publicação do Instituto Çarê, organização cultural sem fins lucrativos que se dedica a preservar e a fomentar manifestações culturais brasileiras de relevo. O livro nasceu do processamento do acervo da editora soteropolitana Corrupio, adquirido em 2003 pelo Çarê. Com organização de Angela Lühning, tem projeto gráfico de Oga Mendonça e posfácio de Tiganá Santana.
Para marcar a chegada da publicação, o Instituto Çarê e a Fundação Pierre Verger promovem dois lançamentos públicos. Salvador recebe o primeiro encontro, no dia 8 de agosto, durante a programação da 10ª Flipelô, Festa Literária Internacional do Pelourinho. Em seguida, no dia 16 de setembro, o livro será apresentado em São Paulo, no auditório da Biblioteca Mário de Andrade. Nos dois encontros, os pesquisadores Ângela Lühning, Angela Fileno eTiganá Santana discutem a trajetória de Verger e os temas presentes na obra.
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Resultado de pesquisas realizadas entre a África Ocidental, a Bahia e outros territórios da diáspora africana, os ensaios abordam temas que acompanharam Verger ao longo de décadas, como as relações históricas entre o golfo do Benim e o Brasil, a religião dos orixás, o transe, as plantas litúrgicas, o sistema de divinação Ifá e as tradições orais da cultura iorubá.
No período em que escreveu esses textos, Verger viveu entre Salvador e a Nigéria, pesquisou arquivos coloniais europeus e brasileiros, tornou-se doutor em estudos africanos pela Escola Prática de Altos Estudos, em Paris, foi pesquisador associado da Universidade de Ibadan e professor visitante da Universidade de Ilê-Ifé. Também percorreu cidades e vilas do território iorubá para acompanhar rituais e registrar relatos orais de babalaôs.
"Os textos reunidos em Iorubahia representam faces relevantes da trajetória multitemática e multiespacial do pesquisador Verger, que ele manteve em processo de construção constante, além da carreira do fotógrafo já consagrado", afirma Ângela Lühning.
A coletânea está organizada em três eixos temáticos. O primeiro, "Aspectos Históricos das Relações Transatlânticas", dialoga com a pesquisa que deu origem à tese de doutorado de Verger sobre o tráfico de escravizados entre o golfo do Benim e a Bahia. O segundo, "Religião Iorubá: Fundamentos e Diáspora", aborda o papel da religião dos orixás na Nigéria e no Brasil e o fenômeno do transe religioso. Já "Cultura, Conhecimento e Oralidade Iorubá" reúne reflexões sobre conhecimentos transmitidos oralmente, plantas litúrgicas e o sistema de divinação Ifá.
No posfácio, o pesquisador, curador e multiartista Tiganá Santana destaca a contribuição de Verger para os estudos africanos e afro-brasileiros e observa que sua obra rompe hierarquias entre o conhecimento produzido na África e na diáspora, propondo uma compreensão mais ampla das conexões culturais entre os dois lados do Atlântico. “Verger convoca que se esteja, seriamente, lá (em algum locus existencial do continente africano) e que se redimensione, por conseguinte, o que é nascer/viver cá”. escreve. “Em última análise, que se repense o ‘lá’ e o ‘cá’. Nada é simples em toda essa história; muito menos deve ser a nossa inserção nela, a nossa recepção dela.”
Inaugurada em 1979 por um grupo de mulheres liderado pela fotógrafa Arlete Soares, a editora Corrupio foi criada para editar a obra de Verger. Em quatro décadas, construiu um catálogo dedicado à presença negra na formação da cultura brasileira e às relações históricas entre o Brasil e a África. A aquisição desse acervo pelo Instituto Çarê possibilitou a retomada de manuscritos de Verger e deu origem a Iorubahia.

O AUTOR
Pierre Fatumbi Verger (Paris, 1902 – Salvador, 1996) iniciou sua trajetória profissional nos anos 1930, tornando-se conhecido como fotógrafo viajante. Em 1946, fixou residência em Salvador, onde trabalhou inicialmente como repórter fotográfico para a revista O Cruzeiro. Mais tarde, enveredou pela pesquisa documental e de campo nas áreas de antropologia, história, conhecimentos orais e botânica, conforme seu interesse se ampliava para questões históricas e culturais, e as tradições religiosas de matriz africana. Em viagens constantes à África Ocidental, e em um período de doze anos vivendo na Nigéria, fez um mergulho pessoal na cultura iorubá, tendo sido iniciado como babalaô em 1953. Em 1966, tornou-se doutor em estudos africanos pela École Pratique des Hautes Études (EPHE), em Paris. É autor de obras referenciais para o estudo dos trânsitos culturais atlânticos e da presença iorubá na diáspora, como Orixás. Os deuses iorubás na África e no Novo Mundo e Fluxo e refluxo do tráfico de escravos entre o golfo do Benim e a Bahia de Todos os Santos, dos séculos XVII a XIX.
A ORGANIZADORA
Angela Lühning começou a trabalhar com Pierre Verger em 1988, momento da criação da Fundação Pierre Verger, em Salvador, e segue vinculada à instituição, como diretora e coordenadora do Espaço Cultural Pierre Verger. Realizou diversas pesquisas sobre Verger e sua atuação, que resultaram em uma série de artigos e outras publicações. Organizou os livros Pierre Verger: repórter fotográfico (2004) e Verger-Bastide: Dimensões de uma amizade (2002), ambos publicados pela Bertrand Brasil. É professora titular aposentada da Escola de Música da UFBA, tendo atuado na área de etnomusicologia da instituição de 1990 a 2025. Suas pesquisas abordam música, memória, história e oralidade na cultura afro-brasileira, além de experiências de educação social em bairros populares de Salvador.
OS EDITORES
Letra da Cidade é o selo editorial dos institutos Acaia e Çarê, duas organizações sem fins lucrativos sediadas em São Paulo e voltadas a promover a valorização e o acesso à educação e à cultura. Seu catálogo cobre áreas de interesse dos dois institutos, como educação, cultura jovem periférica, música e artes visuais.
O Instituto Çarê, centro cultural aberto à cidade, tem como missão salvaguardar e difundir obras que marcaram pontos de inflexão na história da cultura brasileira, promovendo manifestações artísticas relevantes, que passam ao largo do radar do mercado cultural.
A Fundação Pierre Verger (https://pierreverger.org) é uma instituição sem fins lucrativos criada em 1988 e sediada na casa onde Pierre Verger viveu, em Engenho Velho de Brotas, Salvador. Tem como missão preservar o acervo e a memória de Verger, além de propor atividades culturais e socioeducativas para a comunidade local.
* Com assessoria.

SERVIÇO:
"Iorubahia _ Escritos Raros Sobre a Cultura Iorubá e as Relações Entre Brasil e Golfo do Benim"
Autor: Pierre Fatumbi Verger
Ângela Lühning (org.)
Letra da Cidade/Fundação Pierre Verger, 2026
320 páginas
R$ 110
Mais informações: Instituto Çarê


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