O jovem Neftalí Ricardo Reyes Basoalto nunca obteve a aprovação da família quanto a seguir a carreira de escritor. Seu pai, um rude maquinista de trem, detestava a idéia de ter um filho poeta e chegou a queimar inúmeros originais do garoto. Ricardo não teve outra alternativa senão recorrer a um pseudônimo na hora de se inscrever num concurso literário promovido pela revista Corre Vuela. Sob a alcunha de Pablo Neruda, o jovem venceu o concurso, dando início a uma carreira que o transformaria num dos maiores poetas latino-americanos de todos os tempos. Vinte e cinco anos depois de sua morte, em 23 de setembro de 1973, Pablo Neruda está de volta em ‘‘Cadernos de Temuco’’.
Lançado pela Bertrand Brasil, Cadernos de Temuco (266 páginas/R$ 30) reúne três livros escritos pelo Prêmio Nobel de Literatura quando tinha apenas 15 anos. Os livros foram organizados pelo próprio escritor que, em vez de publicá-los, resolveu dá-los de presente para a irmã. Laura Reyes, porém, deu os livros a um sobrinho, Rafael Aguayo, que os vendeu a um colecionador em Londres. As cópias, encontradas recentemente, apareceram de modo fortuito quando, numa das reformas da casa de Neruda em Temuco, Bernardo Reyes, sobrinho do poeta, obteve de Rafael Aguayo a confirmação da autenticidade do material.
Autor de livros importantes, como ‘‘Canto Geral’’ e ‘‘Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada’’, Pablo Neruda nasceu no Chile, em 12 de julho de 1904. Temuco era o nome de uma cidadezinha no extremo Sul do país, para onde a família do poeta transferiu-se em 1910. Aos 10 anos, ingressou no Liceu de Temuco, instituição celebrizada em ‘‘Confesso que Vivi’’. Foi lá que começou a rabiscar os primeiros versos. Indisciplinado, Neruda aproveitava as aulas de Física e Química para exercitar a veia artística. Muitos dos poemas de Cadernos de Temuco foram produzidos em sala de aula, como esclarecem as notas de rodapé.
‘‘Cadernos de Temuco’’ mostra o quanto Pablo Neruda sabia onde queria chegar e estava bem preparado para a empreitada. A maioria dos poemas denotam impressionante domínio da arte do verso, principalmente no que diz respeito à métrica. As rimas não chegam a ser brilhantes nem raras. São mais fáceis do que pobres e se repetem com frequência ao longo do livro. Inventivo, Pablo Neruda amava os neologismos. Como no caso da árvore que ele prefere chamar de primíflora, porque deu as primeiras flores. Nos textos de Temuco, só não há lugar para poesia engajada ou denúncia social. O jovem Neruda, que mais tarde veio a se tornar um comunista dos mais ferrenhos, estava mais preocupado em falar das coisas simples da vida, como natureza e solidão.

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