Livro reúne mitos indígenas sobre a criação
São Paulo, 29 (AE) - No tempo em que Paricot trabalhava muito para criar o mundo, conta uma lenda dos índios aruás, as mulheres não ficavam grávidas na barriga, mas sim na batata da perna. Foi o irmão de Paricot, o deus Andarob, o responsável pela gestação tal qual a conhecemos: um dia, enquanto o irmão construía o planeta, Andarob visitou a cunhada e quebrou o pote de óleo de urucum que ela guardava na vagina. A partir desse dia
Paricot, o criador para a tribo de Rondônia, decretou que as mulheres "não mais descansariam pelo dedo e sim pela vagina", como um castigo pela traição.
São histórias como essa, muitas delas com o enredo intrincado e com pitadas de intrigas de folhetim, que Betty Mindlin reuniu em "Terra Grávida (Editora Rosa dos Ventos, 275 páginas, R$ 28,00).
O quarto livro da antropóloga segue a linha dos anteriores. Em primeiro lugar porque apresenta uma antologia de mitos indígenas levantada na pesquisa realizada no convívio direto com tribos indígenas brasileiras, principalmente aquelas observadas pelo Instituto de Antropologia e Meio Ambiente (Iama)
do qual a autora é uma das fundadoras.
Depois por apresentar as narrativas, escritas pela primeira vez em português, pela voz dos narradores originais, integrantes dos sete povos (macurap, jabuti, aruá, arikapu, ajuru, kanoé e tupari) que contam as versões ancestrais para o aparecimento do mundo, do sol, da lua, do dia, da noite, dos homens, das colheitas, das águas e de outros elementos do universo indígena. No novo livro, a autora preserva a linguagem dos índios narradores, o que aproxima a escrita da oralidade responsável pela sobrevivência dos mitos.
O fio traçado pela autora em Terra Grávida" é o da criação, o que também diferencia a obra das anteriores. Embora histórias sobre o surgimento das coisas também estejam presentes em "Tuparis e Tuparás, Vozes da Origem" e Moqueca de Maridos (publicação que lança luz sobre o imaginário indígena acerca do erotismo e as disputas entre os sexos e que lhe valeu o prêmio de melhor conto/folclore da Associação Paulista dos Críticos de Arte, APCA, em 1997), em "Terra Grávida, o tema costura as narrativas, organizadas pelos objetos da criação, por sua ordem de aparecimento.
Assim, o livro abre com o capítulo dedicado às explicações das sete tribos sobre o princípio (as primeiras pessoas, o aumento da população, o surgimento da água, do fogo, da macaxeira, do sol, da lua) e é encerrado pelas versões para o fim (a origem da morte, o aparecimento do caminho das almas, da cura).
São narrativas, que, como a autora esclarece na introdução do livro, apresentam estruturas semelhantes. Mas ela observa ainda que essas coincidências estruturais não se devem à proximidade geográfica dos índios que habitam "a mesma floresta" ( fronteira do Brasil com a Bolívia). Tratam-se de temas e de esqueletos comuns presentes nas chamadas histórias universais. É o caso, por exemplo, dos protagonistas da criação. Na comparação da autora, assim como na Bíblia, na qual o Criador fez o mundo convivendo "com seu duplo ou sombra", o Diabo, as lendas sobre a construção do mundo transcritas em "Terra Grávida, trazem, na maioria, uma dupla de criadores, mas, entretanto, sem a mesma distinção entre o bem e o mal.
Para a maioria do povos pesquisados, o mundo foi feito por uma dupla de irmãos, como Paricot e Andarob, dos aruás. Mas ainda que de forma mais sutil que a Bíblia, tais personagens são apresentados em oposição: um tem mais poder, o outro, curiosidade; um é mais sossegado, o outro, mais inquieto.
É o caso também de Nambu e Beud, a dupla de arquitetos do universo nas lendas dos índios Macurap. Enquanto Nambu, a quem os índios associam a imagem de Jesus, tem o poder de fazer qualquer coisa a partir do próprio pensamento, contanto que esteja em silêncio, Beud é curioso e deseja as novidades projetadas pelo primeiro. A curiosidade de Beud (associado à São Pedro pelos Macurap), rendeu ao mundo o milho, a macaxeira, o fogo, a água e todas as maravilhas da natureza cobiçadas pelo duplo do criador.
Uma das conclusões da antropóloga sobre a coletânea vem dessa contraposição de personalidades: a inquietação e o castigo pela curiosidade ou erro representam um confronto necessário para o nascimento na grande maioria das lendas, como ocorreu com a traição de Andarob, que com um desastre deu origem à gravidez.
O mesmo esquema aparece na história de Palop e Palop Leregu (Nosso Pai e Nosso Pai de Roupa), criadores na mitologia suruí. O primeiro é sábio e o segundo quer ser sabido. Entre as confusões criadas pelo confronto dos dois personagens distintos, surge o mundo industrial - para esses índios, o deus vestido é o deus urbano.
Na introdução, Betty faz referência às conclusões de Marie-Louise Von Franz , discípula de Jung, que estudou contos de fadas e lendas de índios. Assim como nos mitos dos índios de Rondônia, a psicóloga detectou a função vital dos princípios negativos ou passivos para o surgimento do positivo e ativo no imaginário infantil e indígena, assim como o confronto é parte de toda a literatura mundial. "Mesmo na Bíblia, o conhecimento, considerado positivo no mundo atual, vem do diabo e da tentação", escreve a autora.
Mas Betty, que este ano trouxe um grupo de índios gaviões para dançar suas lendas em espetáculo de Ivaldo Bertazzo
apresenta sua reunião de histórias não como uma tese que inclui a narrativa indígena na universal, uma questão resolvida em outros tempos. As lendas de "Terra Grávida, além de documentar culturas ainda desconhecidas do restante do País, são histórias divertidas, dramáticas ou curiosas que, como escreveu Ítalo Calvino sobre sua reunião de fábulas , "são verdadeiras, pois são uma explicação geral da vida", ou como acrescentou a antropóloga, "são verdadeiras porque contêm uma verdade com um sentido profundo do que espera ser adivinhado".





