“Três dias sem um creme dentário, três dias sem um sabonete ou sabão / O ódio na veia, vivendo uma vida de cão / Minha esperança era ver meu irmão / É fácil falar de justiça quando não se está dentro de um camburão, algemado pé e mão / Justiça pra mim é o sistema achar uma solução de tirar as peças e as drogas das nossas mãos.”

Este é um trecho da poesia produzido por Gago TH, codinome de um adolescente interno no Centro de Socioeducação 1 (Cense 1) de Londrina, e que integra o livro SLAM | Corpo e Poesia em Território Marginal, resultado do projeto de mesmo nome desenvolvido na unidade pelo produtor cultural Dan Barbosa. Ao longo de seis meses, no segundo semestre de 2025, o projeto ofertou oficinas semanais de poesia marginal, escrevivência, história do slam, escrita coletiva e corpo-performance a cerca de 60 adolescentes.

O projeto foi aprovado pela Secretaria de Estado da Cultura – Governo do Paraná, com recursos da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, Ministério da Cultura – Governo Federal.

Equipe de socioeducadores que participaram do projeto de poesia no Cense I
Equipe de socioeducadores que participaram do projeto de poesia no Cense I | Foto: Thaís Fernanda/ Divulgação

DO MURO PRA DENTRO

Ao longo de seis meses, o projeto SLAM | Corpo e Poesia em Território Marginal envolveu cerca de 60 adolescentes do Cense 1. Desenvolvido pela Território Marginal, produtora independente, com foco em arte-educação, cultura de rua e audiovisual, idealizada por Dan Barbosa. Em parceria com o Slam Blackout, as oficinas partiram da compreensão da poesia falada como prática pedagógica, artística e comunitária.

“A metodologia foi na pegada horizontal, respeitando os saberes e vivência dos adolescentes. Usamos também a metodologia da escrevivência, trazendo a escrita a partir das vivências dos adolescentes, das nossas vivências coletivas, trazendo sempre com muito afeto, respeito e memória para conseguirmos seguir com as nossas oficinas semanalmente”, relata Dan.

Estar atento, ouvinte e interessado no que os adolescentes tinham para dizer garantiu o sucesso do projeto. “Buscávamos construir as atividades de forma coletiva. Nas batalhas, por exemplo, perguntávamos aos adolescentes que tipo de premiação gostariam, o que queriam compartilhar nos encontros e como imaginavam aquele espaço. A escuta das escolhas deles fazia parte da metodologia do projeto”, conta o produtor cultural.

COMUNHÃO

Os encontros do projeto SLAM | Corpo e Poesia em Território Marginal também se estruturaram a partir de uma ética do cuidado. Em um espaço marcado por restrições e rotinas rígidas, os arte educadores buscavam construir momentos de convivência e partilha, onde a palavra, o corpo e o alimento pudessem circular coletivamente.

“Em todos os encontros levávamos lanche para compartilhar. Comer junto também era parte da metodologia: criar um tempo de pausa, de conversa e de vínculo. A pedagoga comentava que muitos adolescentes aguardavam ansiosos pela sexta-feira porque sabiam que aquele também era um momento de encontro”, relata Dan Barbosa.

Confira um dos poemas do livro:

ESPERANÇA

Você não nasceu aí!

Espera.

Logo você vai sair.

Lá fora a vida é dura,

Você virou cão,

TODOS GRITAM:

— PEGA LADRÃO!

E agora só falta um mês

E logo, logo

Vai chegar a minha vez

Tô aqui sonhando

Finalmente vou gritá:

-Canta meu alvará!

Saudade que machuca o peito,

Não sei te dizer direito, direito,

Mas vivo para te amar.

Aqui dentro fico pensando nela:

— Será que me espera na janela?

— Ou já superou nossa história

tão bela?

Enquanto a flor murcha,

A esperança não morre,

O muleke chora.

(Gabi)

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LANÇAMENTO EXTRA-MUROS

O lançamento inicial do livro que leva o nome do projeto, SLAM | Corpo e Poesia em Território Marginal, aconteceu para os autores, dentro do Cense1, no final do ano, com show, dança, discotecagem, exposição fotográfica, batalha de poesia e presença de poetas convidados. Agora, o livro segue seu percurso para além dos muros, ampliando o espaço de circulação dessas vozes.

O lançamento para a comunidade será no próximo sábado, 14 de março, no Canto do MARL (Movimento dos Artistas de Rua de Londrina), a partir das 15h30.

O evento também acontece em parceria com a primeira edição do ano do Slam Blackout, coletivo que tem papel importante na movimentação da cena de poesia falada em Londrina.

PROGRAMAÇÃO

O evento realizado pela Território Marginal e Slam Blackout reúne poetas de Londrina, interior de São Paulo, Curitiba para primeira edição de 2026 SLAM | batalha de poesia falada. Durante o evento teremos o lançamento do livro, com distribuição de alguns exemplares. Além disso, contaremos com apresentação da Ballroom Londrina, set do DJ Dan Barbosa e show do MC Gerin, e uma roda de conversa conduzida pelo agente territorial de cultura de Londrina, Dan e a agente territorial de cultura Juuara Barbosa, com o tema “Poesia Marginal e Cultura Ballroom | onde as margens se encontram”. Participam da roda de conversa Kach Miranda (LDN), Majo (CWB), Trava da Fronteira (Foz-PR) e o coletivo Slam Subversão (OUR-SP).

“O evento propõe pensar o corpo, a palavra e a arte como tecnologias ancestrais e contemporâneas de criação, resistência e sobrevivência, reunindo diferentes linguagens e territórios. SLAM | Corpo e Poesia em Território Marginal entende o slam como metodologia educativa que reconhece saberes marginais, incentiva a autonomia criativa e fortalece a dimensão coletiva da palavra”, finaliza Dan Barbosa.

* Com assessoria.

SERVIÇO:

Lançamento do livro SLAM | Corpo e Poesia em Território Marginal

Quando: sábado(14), às 15h30

Local: Canto do Marl - Av. Duque de Caxias, 3241 - Centro, Londrina

Entrada: Gratuita

*

Sobre o projeto:

Produção: Território Marginal e Slam Blackout

Ilustração: Jorge Willian da Silva dos Santos (@_gej0r)

Apoio: Secretaria de Estado de Justiça, Canto do Marl, Slam Subversão, Produtora Metafixa e Ballroom Paraná.

E-mail: [email protected]

Instagram: @territorio.marginal

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