Publicação da Universidade de Londrina registra o ritual dos mortos dos índios kaingángs de Xapecó (SC). Livro será lançado dia 28
ReproduçãoVicente Fokãe é um kuiãn, auxiliar das cerimônias, e tem sido responsável pelo resgate do KikikoiReproduçãoUm rezador (sentado) presta serviços cerimoniais numa das duas fogueiras acesas no primeiro diaReproduçãoEvolução dos Péin Karu, um dos grupos cerimoniais, na noite em que se acende o ‘‘terceiro fogo’’ReproduçãoMulher recebe pintura Kairu (redonda) em uma das etapas da cerimônia dos índios kaingángsNa reza e dança dos Kamé, um dos grupos da tribo, as dançarinas imitam os gestos do tamanduáReproduçãoColocação das cruzes nos túmulos quase ao fim do ritual, depois ainda há rezas e danças
Chiara Papali
De Londrina
Especial para Folha 2


A Universidade Estadual de Londrina (UEL), através da coordenadoria de extensão à comunidade (CEC), e o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), lançam, no próximo dia 28, às 19 horas, na Casa de Cultura (Praça 1º de Maio, 118), o livro ‘‘Kikikoi - Ritual dos Kaingáng na área indígena Xapecó-SC’’.
O livro, resultado de quatro anos de trabalho, é um registro audiofotográfico do ritual dos mortos destes índios. A tiragem inicial é de mil exemplares, que serão distribuídos em universidades, bibliotecas e centros de estudos, mas principalmente em cerca de 75 escolas kaingángs, numa tentativa de resgate do ritual. De acordo com a antropóloga, Kimiye Tommasino, uma das realizadoras do projeto, o objetivo é que ele se torne parte dos recursos didáticos das escolas indígenas kaingángs, que carecem de material sobre a própria cultura.
O Kikikoi era realizado por todas as tribos kaingángs até as primeiras décadas deste século, quando muitos grupos abandonaram a tradição por perseguição de administradores do Serviço de Proteção ao Índio (SPI). O ritual foi retomado em 1976 em Xapecó, e só nos anos 90 voltou a ser anual.
Jorgisnei Ferreira de Rezende, musicista, que também participou do projeto, conta que tudo começou quando a professora Janete El Haouli, do Núcleo de Música Contemporânea da UEL, levou para a universidade, em 1994, uma coleção da Unesco com músicas étnicas. Ele, aluno do curso de licenciatura em música, pensou: Por que não registrar músicas dos índios brasileiros?
Daí para iniciar as pesquisas, com a orientação antropológica da professora Kimiye Tommasino, ainda foram dois anos. O trabalho árduo, e muitas vezes dificultado pela falta de recursos financeiros, fez com que o resultado final demorasse - nada que comprometesse sua qualidade.
Jorgisnei Ferreira e Kimiye Tommasino escolheram estudar os índios kaingángs, até pela sua localização - eles se encontram nos Estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, em 24 áreas indígenas. Procuraram a Funai, pesquisaram os rituais kaingángs e surpresos descobriram que, hoje, o Kikikoi é sua única manifestação musical, e realizado somente na área indígena de Xapecó (ou Xapecozinho), em Santa Catarina. ‘‘Isto aumentou ainda mais a importância de registrar este material’’, afirma Jorgisnei Ferreira.
Eles ainda contaram com a ajuda de pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que intermediaram o primeiro encontro, em 1996, com os rezadores da aldeia Xapecozinho. Nos anos seguintes, eles visitaram sete vezes a região para assistir ao ritual. ‘‘Sempre com o objetivo de aprofundar os conhecimentos sobre o universo sonoro dos kaingángs, sua dança e toda a simbologia que envolve a cerimônia’’, conta Kimiye Tommasino.
O livro explica quem são os kaingángs e o que é o Kikikoi, além de trazer uma breve explicação sobre os aspectos sonoros do ritual. O registro fotográfico traz 62 imagens mostrando cada fase do Kikikoi. O CD traz 28 faixas gravadas em estúdio e 11 gravadas durante a realização do Kikikoi em 1998. Um detalhe interessante é que as rezas gravadas em estúdio contaram com a ajuda do líder indígena Vicente Fokãe, de 84 anos, para a seleção e a edição de áudio, já que tudo é cantado em kaingáng arcaico.

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