Beatriz Coelho Silva
Agência Estado
A vinda da missão francesa para o Brasil não foi uma iniciativa do príncipe regente D. João VI. Na verdade, foi a saída que artistas franceses fiéis a Napoleão Bonaparte encontraram para conseguir trabalhar depois que o imperador francês foi destronado. A revelação está no livro ‘‘Arte no Brasil Colonial’’ (Editora Revan, ainda sem preço definido), que o pesquisador Antônio Luiz d’Araújo lança até o fim do ano. A obra é resultado de 13 anos de pesquisas e vem sendo escrita há quatro.
A parte mais difícil foi resumir, em 260 páginas, três séculos da vida brasileira, desde a chegada dos primeiros colonizadores, em 1530, até a Independência, em 1822. ‘‘Temos bons compêndios de história da arquitetura, da escultura, da música colonial e de outras artes, mas nenhum livro junta todas elas’’, comenta d’Araújo, que sempre trabalhou com divulgação cultural e queria escrever um livro que não fosse caro e servisse tanto de consulta para pesquisadores quanto de leitura para leigos. ‘‘Minha intenção principal foi mostrar que a riqueza cultural brasileira vem da colonização e que as várias artes em que nos destacamos estão sociológica e antropologicamente entrelaçadas.’’
Para escrever o livro, ele leu tudo que lhe caiu à mão sobre História do Brasil e pesquisou nos arquivos do Itamaraty, da Biblioteca Nacional, no Arquivo Nacional e na Torre do Tombo, em Portugal. Lá, teve duas grandes surpresas. ‘‘Eu esperava uma construção antiga, com documentos empoeirados e encontrei um prédio moderno, todo informatizado e nenhuma torre’’, conta d’Araújo. ‘‘E foi lá que achei os ofícios do chefe da missão francesa, Joachin le Breton, ao encarregado dos negócios portugueses em Paris, o conde da Barca, nos quais eram oferecidos à coroa portuguesa os serviços dos artistas bonapartistas que haviam caído em desgraça com o fim do império de Napoleão.’’
O livro é dividido em cinco capítulos, contando cronologicamente como se desenvolveram no Brasil o teatro, a música, a pintura e a escultura. A arquitetura e a literatura não estão no livro porque d’Araújo não se sentiu com conhecimentos suficientes para falar de ramos artísticos tão especializados. Mesmo assim, ele teve de deixar de fora muita coisa que pesquisou. ‘‘Tenho no meu computador a relação de todas as músicas compostas pelo padre José Maurício, nosso principal compositor do período colonial, mas seria muito extenso citar todas no livro’’, cita ele. ‘‘Assim, eu preferi informar que a relação está na Fundação Nacional de Arte (Funarte).’’
Para d’Araújo, as artes brasileiras do período colonial foram dominadas pela Igreja Católica, especialmente os padres da Companhia de Jesus, os jesuítas que, até meados do século 18, eram parceiros de Portugal na colonização. ‘‘Eles chegaram com o objetivo de catequizar os índios, mas usaram seus cânticos, danças e festas para ensinar a doutrina crist㒒, conta o pesquisador. ‘‘Até a vinda da família real portuguesa, os artistas só podiam explorar temas religiosos em todas as artes e poucos driblaram essa determinação.’’
O padre José de Anchieta é uma das figuras principais nesse trabalho de colonização e catequização. Foi ele quem escreveu os primeiros autos que os índios representariam e a criação de monumentos arquitetônicos importantes como o Mosteiro de São Bento, no Rio, foi sugestão dele.
‘‘Quando os jesuítas foram embora, a semente que eles lançaram já havia germinado e havia outras ordens religiosas como os franciscanos e os beneditinos para continuar o trabalho deles’’, informa o pesquisador.
No entanto, d’Araújo deixa claro que aqui havia mais liberdade de expressão e de costumes, embora encoberta por uma capa de moralismo. ‘‘Ao contrário dos outros povos colonizadores os portugueses eram mestiços muito antes do descobrimento’’, lembra ele. ‘‘Eles tinham proporções iguais de árabes, judeus e cristãos e isso vai refletir-se na cultura e nas artes do Brasil pois aqui o controle da Igreja foi bem menor que nos países colonizados pela Espanha’’ - diz o pesquisador.

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