Livro registra três séculos das artes no Brasil
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quinta-feira, 23 de setembro de 1999
Por Beatriz Coelho Silva 
Rio, 24 (AE) - A vinda da missão francesa para o Brasil não foi uma iniciativa do príncipe regente d. João VI. Na verdade, foi a saída que artistas franceses fiéis a Napoleão Bonaparte encontraram para conseguir trabalhar depois que o imperador francês foi destronado. A revelação está no livro "Arte no Brasil Colonial" (Editora Revan, ainda sem preço definido), que o pesquisador Antônio Luiz dAraújo lança até o fim do ano. A obra é resultado de 13 anos de pesquisas e vem sendo escrita há quatro.
A parte mais difícil foi resumir, em 260 páginas, três séculos da vida brasileira, desde a chegada dos primeiros colonizadores, em 1530, até a Independência, em 1822. "Temos bons compêndios de história da arquitetura, da escultura, da música colonial e de outras artes, mas nenhum livro junta todas elas", comenta dAraújo, que sempre trabalhou com divulgação cultural e queria escrever um livro que não fosse caro e servisse tanto de consulta para pesquisadores quanto de leitura para leigos. "Minha intenção principal foi mostrar que a riqueza cultural brasileira vem da colonização e que as várias artes em que nos destacamos estão sociológica e antropologicamente entrelaçadas".
Para escrever o livro, ele leu tudo que lhe caiu à mão sobre história do Brasil e pesquisou nos arquivos do Itamaraty, da Biblioteca Nacional, no Arquivo Nacional e na Torre do Tombo, em Portugal. Lá, teve duas grandes surpresas. "Eu esperava uma construção antiga, com documentos empoeirados e encontrei um prédio moderno, todo informatizado e nenhuma torre", conta dAraújo. "E foi lá que achei os ofícios do chefe da missão francesa, Joachin le Breton, ao encarregado dos negócios portugueses em Paris, o conde da Barca, nos quais eram oferecidos à coroa portuguesa os serviços dos artistas bonapartistas que haviam caído em desgraça com o fim do império de Napoleão.
O livro é dividido em cinco capítulos, contando cronologicamente como se desenvolveram no Brasil o teatro, a música, a pintura e a escultura. A arquitetura e a literatura não estão no livro porque dAraújo não se sentiu com conhecimentos suficientes para falar de ramos artísticos tão especializados. Mesmo assim, ele teve de deixar de fora muita coisa que pesquisou. "Tenho no meu computador a relação de todas as músicas compostas pelo padre José Maurício, nosso principal compositor do período colonial, mas seria muito extenso citar todas no livro", cita ele. "Assim, eu preferi informar que a relação está na Fundação Nacional de Arte (Funarte)".
Para dAraújo, as artes brasileiras do período colonial foram dominadas pela Igreja Católica, especialmente os padres da Companhia de Jesus, os jesuítas que, até meados do século 18, eram parceiros de Portugal na colonização. "Eles chegaram com o objetivo de catequizar os índios, mas usaram seus cânticos, danças e festas para ensinar a doutrina cristã", conta o pesquisador. "Até a vinda da família real portuguesa, os artistas só podiam explorar temas religiosos em todas as artes e poucos driblaram essa determinação". Anchieta - O padre José de Anchieta é uma das figuras principais nesse trabalho de colonização e catequização. Foi ele quem escreveu os primeiros autos que os índios representariam e a criação de monumentos arquitetônicos importantes como o Mosteiro de São Bento, no Rio, foi sugestão dele. "Quando os jesuítas foram embora, a semente que eles lançaram já havia germinado e havia outras ordens religiosas como os franciscanos e os beneditinos para continuar o trabalho deles", informa o pesquisador.
No entanto, dAraújo deixa claro que aqui havia mais liberdade de expressão e de costumes, embora encoberta por uma capa de moralismo. "Ao contrário dos outros povos colonizadores
os portugueses eram mestiços muito antes do descobrimento", lembra ele. "Eles tinham proporções iguais de árabes, judeus e cristãos e isso vai refletir-se na cultura e nas artes do Brasil
pois aqui o controle da Igreja foi bem menor que nos países colonizados pela Espanha". Além disso, os artistas brasileiros recorreram muito à mão-de-obra escrava e, por isso, o barroco brasileiro teve grande influência africana. "A maioria deles era filho de escravos, como é o caso de Aleijadinho, Mestre Valentin e o próprio padre José Maurício". Artes - A vinda da família real para o Brasil foi um divisor de águas na cultura do País. "Antes, a vida cultural era extremamente pobre e tudo mudou porque os Braganças tinham uma tradição de prestigiar as artes, especialmente a música", ressalta dAraújo. "A Independência não trouxe tantas mudanças, até porque o País ficou em má situação financeira, pelo fato de ter de pagar muito dinheiro à Inglaterra para que o novo país fosse reconhecido". Apaixonado pela história do Brasil colonial, dAraújo já começou a pesquisar seu próximo livro sobre o período. "Vou escrever sobre o conde da Barca, o ministro de d. João VI responsável por boa parte das modificações históricas ocorridas no Brasil e em Portugal nos primeiros anos do século passado".


