Livro refaz o mapa da arte
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 19 de novembro de 2002
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
Quais são os artistas mais representativos da arte contemporânea brasileira? A pergunta, das mais difíceis, provavelmente não obteria um consenso caso fosse colocada numa mesa rodeada de críticos, curadores, colecionadores e palpiteiros em geral.
O professor Agnaldo Farias selecionou 26 nomes para, a partir da análise de suas obras, traçar um panorama da produção visual recente do país no livro ''Arte Brasileira Hoje''. O volume faz parte da coleção ''Folha Explica'', editada pela Publifolha com o objetivo de introduzir os leitores a temas atuais.
Waltercio Caldas, Vik Muniz, Jac Leiner, Cildo Meireles e Rosângela Rennó são alguns dos artistas enfocados numa lista que abrange somente nomes surgidos a partir dos anos 60 e particularmente na passagem para os 70 e ao longo destes. No texto de abertura, o autor lembra que o livro destina-se a todos aqueles que ainda associam arte a pinturas, esculturas, desenhos e gravuras sentindo-se completamente alijados do novo mundo visual desbravado pelas instalações, performances, vídeos e obras conceituais.
Faria assinala que o público, ''forquilhado entre a curiosidade e a irritação causada pela dificuldade em compreendê-las'', segue na rabeira da inserção e reconhecimento internacionais conquistados pela arte contemporânea brasileira. Ele sugere a imagem de ''arquipélago'' para descrever as múltiplas direções e o acervo de obras singulares que constituem a atual diversidade estética. ''A imagem é boa porque foge do reducionismo das grandes etiquetas, que, ao valorizarem as semelhanças entre as obras de alguns artistas, não atentam convenientemente para as diferenças entre elas'' observa.
Mais adiante, alerta que a arte contemporânea não é prerrogativa de gente jovem. ''Salvo exceções, os jovens artistas possuem trajetórias de início irregular, incapazes de propor um conjunto homogêneo de problemas e enigmas consistentes'' diz. Ao rastrear as origens das manifestações artísticas contemporâneas no país, Farias assinala a virada dos anos 50 para os 60 como um marco emancipatório da inteligência plástica verde-amarela, com as discussões em torno do expressionismo abstrato e sobretudo com o abstracionismo geométrico (concretismo e neoconcretismo).
Nos anos 70, as reflexões se acentuam com o revigoramento do binômio arte-política e o surgimento de obras abertas à manipulação do público. No período, escreve o autor, aparecem experiências estéticas ''mais complexas do ponto de vista conceitual, mais interessadas no plano intelectual dos espectadores do que em suas retinas''. Já nos anos 80, verifica-se uma retomada de formas tradicionais de expressão (com destaque à pintura) negando os dogmas modernistas de rejeição ao passado.
Os anos 90, por sua vez, são avaliados pelo autor como o ápice da crise da modernidade. As obras dessa fase são marcadas pela descontinuidade e multiplicidade de vertentes. Se algumas mergulham em referências históricas e pessoais, outras parodiam a própria arte e o círculo na qual ela está enredada. Se algumas trocam os suportes convecionais por manifestações híbridas, outras descartam as heranças do neoconcretismo buscando fontes diversas como o barroco mineiro, o problema da imagem na vida atual, a arte popular e as especulações sobre o corpo e suas pulsões.
Convém lembrar ao leitor que toda a dissertação conceitual sobre arte contemporânea não ocupa mais do que as 20 linhas iniciais do volume. O grosso das páginas é voltado para as análises das obras dos artistas, que ganham capítulos individuais organizados em ordem alfabética. Sem pretensão de ser exaustivo, o mapeamento do autor destaca os artistas Artur Barrio, Marcos Benjamin, Waltercio Caldas, Leda Catunda, Antonio Dias, Carlos Fajardo, Nelson Felix, Carmela Gross, karin Lambrecht, Jac Leirner, Nelson Leirner, Ivens Machado, Cildo Meireles, Vik Muniz, Emmanuel Nassar, Arthur Omar, Lygia Pape, Nuno Ramos, Rosângela Rennó, José Resende, Miguel Rio Branco, Dudi Maia Rosa, Daniel Senise, Regina Silveira, Ana Maria Tavares e Tunga.
Agnaldo Farias é professor do curso de Arquitetura e Urbanismo da USP-São Carlos e foi curador da representação brasileira da 25 Bienal de São Paulo.
Serviço:
Livro ''Arte Brasileira Hoje''. Autor: Agnaldo Farias. Editora Publifolha (tel. 11/3224-2196). Preço: R$ 9,90. 121 páginas.


