A história de Anne Frank continua emocionando gerações, desde o lançamento do famoso diário, em 1947. Desse registro contundente da 2ª Guerra Mundial, germinaram livros, peças teatrais e filmes. Há dois anos, foi lançado na Alemanha ‘‘Anne Frank – Uma Biografia’’, de Melissa Muller, que a editora Record coloca agora no mercado brasileiro com pompa e circunstância.
O livro traça o itinerário da garota judia desde o seu nascimento até os últimos momentos, num minucioso trabalho de jornalismo investigativo. Para a reconstrução dos fatos que envolveram a vida de Anne Frank, Melissa Muller se debruçou em demoradas conversas com sobreviventes do holocausto e trocou correspondências com outras pessoas que mantiveram algum tipo de relacionamento com Anne. Sobreviventes espalhados nos quatro cantos do mundo foram contatados. Do Brasil, Melissa Muller trocou correspondência com Nanette Blitz, colega de escola e que padeceu no campo de concentração de Bergen-Belsen, sendo testemunha dos últimos dias de Anne.
A autora vasculhou museus em Frankfurt, Amsterdã, Basiléia e Nova York. Correspondências da família também serviram de registro para recompor os passos de Anne. Uma das fontes mais importantes foi Miep Gies, a jovem que ajudou a família Frank por mais de dois anos no esconderijo da Rua Prisengracht 263, Amsterdã.
Muitas das atitudes de Anne Frank no esconderijo, relatadas no famoso diário, podem ser compreendidas agora com a biografia. Anne foi educada na Escola Montessori, cujo método pedagógico libertário oferecia ao aluno o direito de ser ele mesmo. O aluno escolhia no início de cada novo dia, com o que gostaria de se ocupar e se preferia atividades individuais ou em grupo. Esse fato, aliado às atitudes de Otto Frank como pai, influiram decisivamente na visão de mundo de Anne Frank.
A biografia revela o perfil de Anne pré-esconderijo: uma garota de compreensão rápida, porém distraída, curiosa, mas que se entediava com facilidade. Anne era brincalhona e empreendedora. Cinéfila, amava o glamuroso mundo de cinema, gostava das fofocas dos astros de Hollywood. Na escola, foi atriz principal numa peça de teatro, revelando seu talento como comediante.
Anne não gostava de ficar sozinha, queria comunicar-se e precisava ser ouvida. Dava sempre suas opiniões abertamente, muitas vezes, sem nenhuma diplomacia, até magoando os outros. Isso explica a necessidade de ter um interlocutor no esconderijo, no caso, o diário.
Muller retratou um panorama da pressão gradativa e arrasadora dos nazistas sobre os judeus holandeses, provando que a máquina de extermínio funcionava. Quando o pai de Anne, Otto Frank, prenunciou o pior, planejou meticulosamente o esconderijo nos fundos de sua empresa e a sobrevivência na clandestinidade.
Na Prinsengracht, 263, em 6 de julho de 1942, se esconderam Otto Frank, Edith Frank, as filhas Margot e Anne. No mesmo esconderijo, seguiram Hermann, Auguste e Peter van Pels. O oitavo clandestino era o dentista Fritz Pfeffer.
Nos três primeiros dias no esconderijo, Anne estava em choque, era obrigada a falar baixo, reprimindo todo o ímpeto de sentimento. O mundo lá fora estava a uma distância inalcançável para eles.
Miep Gies foi a grande heroína na batalha pela preservação da vidas daqueles que viviam no esconderijo. Após a prisão dos oito judeus, ela encontrou o diário enxadrezado em vermelho, um caderno e 327 páginas soltas de papel de seda. Miep entregou ao pai da garota no mesmo dia em que ele soube da morte das filhas. Otto Frank foi o único sobrevivente.
A biografia revela que Anne agia como dramaturga, modificando desfechos e reformulando passagens inteiras onde o texto original não mais lhe agradava. Encontrar um editor para o documento mais duradouro produzido nesse século, foi mais difícil do que se supunha. Em março de 1947 saiu pela Editora Contact a 1ª edição, com uma tiragem de 1.500 exemplares. Em 1952 saiu a 1ª edição nos EUA de ‘‘Anne Frank: The Diary of a Young Girl’’. Somente depois do sucesso na Broadway, o comovente registro ganhou admiradores em todo o mundo.
O estúdio Fox anunciou, na última semana, o início da produção de um filme sobre Anne Frank. A história já recebeu uma versão cinematográfica em 1959. Esse novo projeto é do produtor Marc Platt, que há muitos anos tenta ganhar a confiança da família da menina e dos responsáveis pela Anne Frank Foundation. A data de início das filmagens não está marcada. Eles estão na fase de escolha do elenco, selecionando a nova Anne Frank.

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