Há 70 anos, num domingo de sol da pacata São Paulo, que tinha na época menos de 1 milhão de habitantes, o jovem arquiteto Flavio de Carvalho passava em frente à catedral da cidade, quando vislumbrou uma multidão na procissão de corpus Christi.
Foi quando lhe ocorreu ''a idéia de fazer uma experiência, desvendar a alma dos crentes por meio de um reagente qualquer que permitisse estudar a reação nas fisionomias, no passo, no olhar, sentir enfim o pulso no ambiente'', conta Carvalho no livro ''Experimento nº 2''.
O arquiteto voltou, então, para casa, colocou um boné na cabeça e retornou à procissão. O simples gesto de usar o acessório foi motivo para que a multidão ficasse enraivecida e só não linchasse o provocador por intervenção da polícia.
Carvalho publicou o relato de seu dia de terror no livro ''Experiência nº 2'', que é agora relançado pela editora Nau por ocasião da mostra do surrealismo, no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro.
''Esse livro estava esgotado há décadas, era considerado raro, e por meio dele pode-se descobrir uma faceta interessante do artista'', diz Denise Mattar, uma das curadoras da mostra no Rio.
''Experimento nº 2'' é dividido em duas partes. A primeira, uma narrativa contundente, descreve minuciosamente todas as sensações de Carvalho e a reação popular. A descrição de como o medo se apoderou dele lembra os textos kafkianos. Já a segunda parte é uma investigação e análise da religiosidade popular. Recheado com citações de Freud e Nietzche, ela pode ser considerada uma ''pesquisa da alma'', como afirma Luiz Camillo Osorio em ''Flavio de Carvalho'' (Cosac & Naify, 2000). Artista multidisciplinar, Carvalho (1899-1973) foi pintor, escultor e, como atesta ''Experiência nº 2'', também um performer.


''Experimento nº 2'': livro escrito e publicado em 1931, com ilustrações do autor Flavio de Carvalho. Editora: Nau (tel. 0/xx/21/2542-4272). Nova edição. 152 págs. R$ 24.

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