São Paulo, 17 (AE) - É inevitável: "Notícias do Planalto", o best seller de Mário Sérgio Conti, vai acabar virando filme. O livro, que discute com minúcias as relações da imprensa com o poder durante a ascensão e queda de Fernando Collor de Mello, já tem dois interessados de peso, os diretores Bruno Barreto (de Dona Flor e seus Dois Maridos) e Cacá Diegues (de Bye Bye Brasil e Orfeu).
Barreto implorou a Conti que não negociasse os direitos com ninguém até que ele terminasse a leitura do livro, um catatau de 720 páginas. Diegues já leu e manifestou seu interesse. "Comprei o livro antes de viajar para Cuba, onde fui apresentar "Orfeu", e não consegui despregar-me dele", disse em conversa com a reportagem. Entusiasmado, o diretor encontrou-se na volta com o editor de Conti, Luiz Schwarz, da Companhia das Letras, que teria dado sua anuência ao projeto. Falta agora conversar com o escritor.
"Não tenho preferência, vou falar com os dois", disse o autor do livro, Mário Sérgio Conti. Ele acha que o chamado "andamento cinematográfico" do seu livro está na própria história do governo Collor. "Tem intriga, paixão, morte, traição", avalia. "Como o livro conta essa história, desperta o interesse". De fato. Enquanto estava lendo "Notícias do Planalto", Cacá Diegues já se dava conta de que estava diante de um romance político incrível. Só que esse "romance" aconteceu na realidade e faz parte de um passado recente que influi até hoje no presente.
"Não sei como ninguém teve até agora idéia de filmar esse período", espanta-se o cineasta. Além disso, diz Cacá, o livro lhe trouxe "informações maravilhosas e muita coisa sobre o Collor que eu não sabia". Segundo ele, a trajetória de Collor ilumina um pedaço da história do País. O filme poderia contribuir para trazer a realidade nacional de volta às telas: "Estranhamente, o Brasil anda um tanto ausente no cinema; precisamos ir de novo à nossa realidade".
O diretor fala com autoridade sobre o assunto. Goste-se ou não dos filmes de Cacá Diegues, deve-se reconhecer que eles constituem uma reflexão contínua sobre o País onde são são feitos. Por isso, também, o seu interesse pelo período Collor. "Foi uma fase traumatizante para o País e talvez essa característica tenha intimidado um pouco os realizadores", analisa. Ele acha que agora, com a distância no tempo, já se pode falar do período com mais objetividade. O livro de Mário Sérgio Conti serviria como mote para essa interpretação do passado recente.
O próprio Fernando Collor - personagem central da história - parece que ficou com impressão favorável do livro, embora ele desnude as intrincadas relações do poder e do abuso do poder em seu governo. "Abro parênteses para dizer que essa obra certamente contribuirá para tornar mais cauteloso (e ético) o relacionamento entre os repórteres e suas fontes, embora o mais importante do livro de Mário Sérgio Conti talvez seja a demonstração de que, na nossa imprensa, há pessoas tão honradas quanto na Roma de César, Marco Antônio e Brutus", afirmou o ex-presidente.
O cineasta Cacá Diegues destaca ainda o caráter trágico da história, "a família de Collor, as inconfidências entre irmãos, a traição, a morte, todos esses ingredientes compondo uma trama de alta voltagem dramática". O cineasta entende que o enredo tem ressonâncias shakespearianas, até mesmo na hesitação de Collor ao administrar a crise instalada em seu governo. "A partir de um determinado momento, ele não teve mais reação, como se os fatos o tivessem ultrapassado e ele não visse mais nenhuma saída para si", diz Cacá.
Além disso, o livro não fala apenas de Collor ou da imprensa, mas da relação entre os dois: "Acho que traça um perfil muito vivo do tecido social e político do País", diz. Pode-se vislumbrar, nesse perfil, como funcionam os acordos de bastidores para que toda uma vasta máquina de corrupção se ponha em movimento. Segundo Cacá, o livro permite avaliar também se de fato a imprensa melhorou muito nos anos recentes ou não. "Na crise, a imprensa se manifestou e desempenhou um papel muito grande", diz.
Esse papel importante durante a crise e renúncia de Collor pode ter fortalecido o poder social da imprensa. "Talvez essa presença social da mídia se tenha exacerbado, podendo ter levado a um jornalismo mais selvagem, no qual a busca da notícia tem precedência sobre qualquer tipo de consideração", arrisca. Mário Sérgio Conti discorda dessa avaliação de Diegues. Ele acha que a imprensa melhorou após o caso Collor.
Primeiramente, cobriu-se a campanha com "certa frouxidão, com critérios técnicos pouco definidos", afirmou. "Mas, como foram repórteres que apuraram e publicaram as mazelas daquele governo, a imprensa está aproveitando a experiência acumulada", diz o autor. Justiça - Há ainda um outro problema a ser contornado para que uma futura adaptação cinematográfica se concretize: "Notícias do Planalto", quando do seu lançamento, provocou reações de alguns profissionais citados no livro, que ameaçaram o autor de processo judicial. Mas, até agora, nada se consumou. "Não recebi nenhuma comunicação judicial", diz Conti. "E eu não esperava por elas, porque no meu livro eu não acuso, não ataco, não incrimino; apenas registro os fatos da maneira a mais serena possível".
Bruno Barreto, que já se debruçou sobre o período da ditadura militar com "O Que é Isso, Companheiro?", voltará à análise histórico-política se conseguir de fato filmar "Notícias do Planalto". Já Diegues retomará uma temática em parte conhecida. Em "Os Herdeiros" ele já esmiuçava a estrutura de poder do País, mas na época getulista. O filme, de 1969, tenta mostrar 30 anos de história política do País pela trajetória de um personagem. Se a adaptação do livro de Conti sair, será, segundo Cacá, "o segundo capítulo de Os Herdeiros". Best seller - O livro caminha para ser um best seller da editora Companhia das Letras. Já vendeu 50 mil exemplares. O jornalista Mário Sérgio Conti foi diretor de redação da revista "Veja" entre 1991 e 1997. Levou dois anos pesquisando para fazer o livro. Uma adaptação cinematográfica do livro provoca curiosidade. Quem fará o papel dos magnatas da imprensa, como Roberto Marinho, da Organizações Globo? Conti é amigo do empresário e, há duas semanas, esteve na festa de aniversário de Marinho. "Ele disse que estava lendo o livro e estava gostando", comentou o autor.

mockup