''Tudo o que a gente ouve é música?''. A pergunta, disparada por uma criança, foi o ponto de partida para a pesquisadora Fátima Carneiro dos Santos investigar o ambiente sonoro e nossas relações auditivas com ele. O resultado, quase vinte anos depois, virou tese de mestrado e o livro ''Por uma Escuta Nômade: a Música dos Sons da Rua'' (Educ/Fapesp).
O livro será lançado hoje, às 19h30, na Casa de Cultura da UEL (Praça 1º de Maio, 118) com apresentação de paisagens sonoras registradas por Janete El Haouli, Valquir Fedri e da própria autora. Antes, às 14 horas, ela expõe suas idéias na sala 656 do Departamento de Música da UEL, onde é docente. ''Proponho mudar a atitude da escuta, ampliando a idéia de música. Quero mostrar que é possível ouvir música onde a princípio não existe música'' diz.
Na introdução do livro, ela relata as experiências desenvolvidas com seus alunos nas quais o exercício constante de escutar ambientes possibilitou momentos nos quais ouvia-se buzinas, apitos e outros sons de modo diverso do habitual. A emergência de uma ''escuta diferenciada'' levou-a, posteriormente, a mergulhar nas obras literárias e musicais desbravadoras do tema. Seu livro sintetiza as inquietações emprestando conceitos e reflexões de artistas e teóricos como Murray Schafer, John Cage, Pierre Schaffer, Daniel Charles e Gilles Deleuze.
No texto de apresentação, Silvio Ferraz salienta que a autora propõe escutar uma outra idéia de música, que estaria escondida em meio aos sons de carros, transeuntes, ônibus, aviões, estrondos ou ainda um pássaro perdido. Segundo ele, Fátima ambiciona ''abrir as janelas dos ouvidos para depois levar a música das ruas para as outras escutas, até que a própria idéia de música se veja mudada e escancarada''.
Sob essa nova perspectiva, Fátima desloca a apreensão da sonoridade para a cena cotidiana, em que todos os estímulos auditivos estão permanentemente em trânsito, favorecendo a vivência da escuta nômade. ''Com essa atitude, promove-se uma desestabilização da escuta habitual seja da música tradicional seja da rua. O importante é ser arrastado, jogado de um lado para o outro, sem necessariamente dar nome aos sons'' explica ela.
O livro é acompanhado de um CD contendo três faixas-paisagens sonoras e dez exercícios de escuta. Entre as gravações figuram registros de sons ambientais da Av. Paulista (SP), do centro de Londrina e da praça principal da cidade de Prados (MG). O lançamento contou com o apoio do Núcleo de Estudos de Música e Contemporaneidade e Casa de Cultura, ambos da UEL.

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