Livro põe fogo no circo da sociedade
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 29 de novembro de 2001
Zeca Corrêa Leite<br> De Curitiba 
A realidade tem história que até a ficção duvida. O livro ''O Circo Pegou Fogo'', de Liamir Santos Hauer, com lançamento marcado para hoje, às 18 horas, no último piso do Shopping Crystal, remexe em assuntos que as tradicionais famílias curitibanas gostariam de ver enterrados. As muitas histórias de alcova, temperadas a traições e trapalhadas, com algumas cenas pavorosamente trágicas, mostram que Curitiba só é certinha nas aparências. Dalton Trevisan que o diga.
Os escândalos varrem a cidade com línguas de fogo desde tempos imemoriais. Liamir colocou nas páginas desde ''causos'' que chegaram a ela confidenciados muitos anos atrás, pelas velhas mulheres da família, até aqueles que aconteceram em seus dourados tempos como participante ativa do society das araucárias.
A coleção das narrativas fica nos limites sócio-geográficos dos bem-nascidos, aqueles que frequentavam os elegantes salões, especialmente os nobilíssimos Country e Curitibano, cujos sobrenomes reluzem ainda hoje através dos herdeiros, facilmente encontrados nas colunas sociais. Nesta sucessão de abafados bafons não entram os emergentes que sem-cerimônia e com muito dinheiro invadiram a seara dos nascidos em berços chiques.
Com 78 anos de idade, Liamir ressente-se de que o círculo das amizades dos velhos tempos esteja rareando. Para ajudar, é pouco afeita às novelas da TV e não tem temperamento para ficar tecendo intermináveis toalhinhas de tricô. Resultado: os dias encompridaram para ela.
Atenta, buscou um jeito de se desviar da solidão - senta em frente ao computador e ali fica escreve suas memórias. ''Escrever é um vício, do mesmo jeito que se vicia em tomar Coca-Cola'', compara. A princípio refugiou-se nas lembranças tentando se proteger da morte do irmão, o engenheiro Dario Lopes dos Santos. Produziu o divertido ''O Circo'', onde narra a infância vivida em Paranaguá até casar-se aos 15 anos e, depois, a vida de intensa atividade social em Curitiba.
À época do lançamento anunciou que tinha outro volume em andamento, ainda sem título. Deu uma breve noção do que seria e exemplificou com o episódio da ''casa do pessegueiro'', um discreto bordel que havia no centro da cidade, de muro alto, com uma árvore na calçada. O tal pessegueiro que batizou o local.
Pois bem, ali era o local onde uma distinta dona-de-casa encontrava-se com o amante (também casado). Para não despertar desconfiança dos familiares, apareciam logo após o almoço. Num desses embates amorosos o homem, com certeza depois de uma lauta refeição, morreu em plena função. A duras penas vestiram-no e o deixaram sentado no meio-fio, encostado na árvore.
Bastou comentar que ia ressuscitar essa e outras histórias para que um rastilho de pólvora despertasse lembranças aparentemente adormecidas. O interesse se deu numa proporção tão grande que o telefone não parava de tocar em sua casa. Todos queriam colaborar. Certa noite, durante um jantar, mais uma vez o soou o telefone. Liamir virou-se para a filha: ''Meu Deus, o circo pegou fogo!''. O genro que estava à mesa, matou a charada: ''Taí o nome do livro''.
Esperta, a escritora sabia que uma parcela das ligações não era exatamente para levar informações, mas para sondar o que vinha pela frente. ''Todo mundo tem pelo menos uma mancha negra na família, por mais remota que ela seja'', sentencia. E garante que nessa leva de tropeções tem até mesmo ''umas parentas minhas, de longe''.
''O Circo Pegou Fogo'' não incendeia totalmente porque ali se conta o milagre, mas não o santo. ''Os nomes são preservados, porque os descendentes estão aí, fazem parte da sociedade. Mas tem alguns que estão tão à vista que tive que despistar um pouco'', diverte-se. ''Tem o caso de um tarado que todo mundo vai saber quem é assim que começar a ler'', aposta.
A morte levou os protagonistas, mas os descendentes perpetuam a nódoa: ''Ela vai se arrastando até os últimos dias''. Se for como Liamir vaticina, futuras gerações irão se lembrar da senhora falecida há poucos meses, que apesar dos quase 90 anos de idade ainda trazia o mesmo furor sexual de quando moça. ''Os filhos nem se davam mais com ela, porque tinha amante. Você acredita que ela arranjou um padre bem mocinho, que podia ser neto dela?'' entrega Liamir. ''O Circo Pegou Fogo'', de Liamir Santos Hauer. Sessão de autógrafos hoje, às 18 horas, no Shopping Crystal (último piso), em Curitiba. Valor: R$ 15,00.


