Livro narra a história da filatelia no Brasil
PUBLICAÇÃO
domingo, 04 de janeiro de 2004
Maria Hirszman<br> Agência Estado 
Dentre todas as coleções a que as pessoas se dedicam com afinco na infância, e muitas vezes por toda a vida, destaca-se de forma bastante evidente a de selos. Não deixa de ser curioso que um objeto que está por cair em desuso ainda continue a despertar a atenção de milhares de pessoas em todo o mundo. Detectando esse fascínio, que vai além dos filatelistas, conquistando também interessados pelo caráter documental desses pequeninos pedaços de papel, a editora Metalivros está lançando - obviamente com o patrocínio dos Correios, o livro Selos Postais do Brasil (232 págs., R$ 78).
Com textos de Cícero Antônio F. de Almeida e Pedro Karp Vasquez, a obra traça a história dos selos no mundo e no País. Começando com uma historieta curiosa que explicaria a invenção desse ''pedaço de papel (...) coberto na parte traseira com goma, que o portador poderia, aplicando um pouco de umidade, prender na parte posterior da carta'' por Rowland Hill em 1837 - que dá origem ao primeiro selo conhecido, lançado na Inglaterra três anos depois - até a curiosa informação de que o Brasil foi o segundo país a adotar esse sistema em 1842 (''não é sem razão que os primeiros selos postais brasileiros, conhecidos como 'olho-de-boi' devido ao formato do desenho, são tão admirados e colecionados por filatelistas de diversos países''), somos levados a descobrir a história do selo e da filatelia.
Em alguns momentos, as referências tornam-se por demais específicas, caindo num campo restrito de descrição excessivamente técnica ou historiográfica. Um exemplo: ''No Brasil, em consequência das determinações do alvará de 20 de janeiro de 1798, foi estabelecida na cidade do Rio de Janeiro uma Administração dos Correios, cabendo a Antonio Rodrigues da Silva a incumbência de dirigi-la.'' A informação pode ter sua relevância histórica para pesquisadores do período ou do assunto, mas é um tanto hermética para o leitor geral.
Há, no entanto, na publicação, atrativos suficientes para todos aqueles que, em algum momento, dedicaram-se mais ou menos seriamente à filatelia, hábito que ganhou muitos adeptos no Brasil há algumas décadas, tendo inclusive se transformado numa espécie de investimento rentável nos anos 70, com um importante incremento das coleções ditas temáticas. Segundo Almeida, essa ''euforia pode se considerar um reflexo do que se convencionou chamar de Milagre Econômico''.
Um dos pontos altos da publicação é o cuidadoso projeto editorial e a rica seleção de imagens, que ecoam de imediato na nossa memória afetiva. Ao folhear o livro, somos convencidos da tese de Karp Vasquez: ''Nada espelha melhor a identidade de uma nação do que os selos.'' Evidentemente, o que está em questão aqui é a identidade oficial, a imagem que o governo pretende passar de seu país, seja por meio de uma ufanista imagem de Pelé celebrando um gol (um dos timbres mais disputados em sua época), seja como forma de louvar nossa natureza e nossa gente. A análise do que é dito nas entrelinhas, iniciada nessa obra, fica a cargo dos pesquisadores.


