Livro mostra poder dos quadrinhos no Japão
PUBLICAÇÃO
sábado, 01 de abril de 2000
Por Ricardo de Souza 
São Paulo, 02 (AE) - Nas culturas milenares do Oriente, o mito da ave imortal Fênix significa o recomeço, a reconstrução a partir das cinzas. O Japão é, por méritos próprios, o país que melhor representa essa simbologia. Nos anos 50, período pós-guerra, o governo japonês acabara de receber o poder de volta dos norte-americanos, depois de profundas reformas econômicas, sociais e políticas. Foi nessa época que surgiu o mangá "Phoenix, do mestre Tezuka Ossamu, que, com seus personagens que surgiam em diferentes encarnações, no passado, presente e futuro, inspirou milhões de japoneses a resgatar sua cultura e dignidade, fortemente abalada pela ocupação americana.
Esse é um dos exemplos que a professora Sonia Bibe Luyten, autora de Mangá: O Poder dos Quadrinhos Japoneses" (Editora Hedra, 256 págs., R$ 26,00), colheu em seu minucioso trabalho de pesquisa - realizada no Japão e vários outros países asiáticos - sobre essa rica forma de comunicação de massa. O livro de Sonia, que chega às livrarias esta semana, disseca um tipo de arte muito mais abrangente do que possa pensar qualquer aficionado por quadrinhos em países ocidentais. Trata-se de uma cultura extremamente particular, multissegmentada e intimamente associada aos rígidos valores morais que regem o povo japonês.
Em sua obra, Sonia Luyten não apenas relata a origem dos mangás, mas contextualiza o momento histórico em que surgiu e faz uma análise da sociedade japonesa, marcada por um conjunto de regras, obrigações e etiqueta inflexível - principalmente direcionado às mulheres - e pelo respeito à tradição. A autora faz ainda um paralelo entre o mangá e o boom da economia japonesa, classifica as várias formas de editoração das publicações, fala de personagens, da história e expansão dos mangás, da influência estrangeira e da presença do gênero no Brasil.
"O que se conhece no Ocidente é o animê (desenhos animados como "Pokémon, Cavaleiros do Zodíaco, para citar os mais conhecidos), mas essa difusão da cultura japonesa não foi feita de uma hora para outra", diz Sonia. Nos sete anos em que morou no Japão, a professora da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP) descobriu que falar da história dos quadrinhos japoneses é conhecer boa parte da história daquele país.
Obra-prima - Segundo a autora, as primeiras ilustrações remetem aos séculos 6 e 7, período em que foram feitos desenhos profanos e caricaturas de animais e pessoas no teto e paredes dos templos de Toshodaiji e Horyuji, construídos na antiga capital japonesa, Nara. No século 15, surge uma obra-prima da arte sequencial. Hayakki Yako" (A Caminhada Noturna de Cem Demônios), feita por Mitsunobu Tosa. De acordo com Sonia, o trabalho teria influenciado vários artistas modernos.
A leitura de bibliografia especializada sobre mangá é uma tarefa iniciada por Sonia há 14 anos, quando começou a dar aulas de história em quadrinhos na USP. Parte do resultado desse estudo foi, ao longo dos anos, publicado sob a forma de artigos em jornais e revistas especializadas, entre elas a Quadreca, que se tornou o embrião de sua pesquisa. Contudo, à medida que se aprofundava nas leituras, Sonia percebeu que era preciso mais do que artigos para analisar os mangás. Foi quando decidiu elaborar sua tese de doutorado. "No início, ninguém queria aceitar o tema, por puro preconceito", lembra.
Foi no Japão, como professora do Departamento Luso-Brasileiro da Universidade de Estudos Estrangeiros de Osaka
que a autora pôde desenvolver com profundidade a pesquisa. O contato direto com as pessoas - incluindo artistas -, a cultura e o ambiente presente nas páginas dos mangás foi "a viga mestra da estrutura da obra". Lá, ela teve acesso à bibliografia recente sobre o tema em museus e bibliotecas, entrou em contato com desenhistas e associações de classe e editoras. "Pesquisei sobre o que os japoneses pensavam sobre assuntos como violência e o escapismo proporcionado pelos mangás", conta Sonia.
Os mangás são, no arquipélago nipônico, uma indústria editorial, no maior sentido que a palavra indústria possa ter. As publicações representam 40% de tudo o que é publicado no país. Semanalmente, são despejados nas livrarias, estações de trens e no comércio em geral tiragens de dezenas de milhões de livros - alguns com a espessura de listas telefônicas - que movimentam anualmente, segundo levantamento recente, aproximadamente US$ 2,5 bilhões.
Sonia faz em seu livro uma comparação curiosa: "As cifras de uma revista semanal como a Shonen Jump" (direcionada para o público masculino) são quase o dobro das vendas mensais de todo o conjunto das revista de Maurício de Sousa no Brasil." A variedade dos títulos também impressiona. Há publicações didáticas (shogaku) para crianças, femininas (Ribbon, Nakayoshi
Bessatsu", etc.) e masculinas (Shonen Champion, Shonen Magazine, Shonen Sunday"). Os títulos têm várias ramificações, destinadas a faixas etárias distintas, categorias profissionais e setores diferentes da sociedade.
Maioria feminina - A bela pesquisa de Sonia revela ainda como os desenhistas de mangás são considerados estrelas no país. Os mais famosos são ricos e não podem sair às ruas sem ser reconhecidos e cercados pelos fãs. Outra curiosidade: as mulheres são maioria entre os artistas. Algumas, como Rumiko Takahashi, autora de "Ranma 1/5" (que pode ser encontrada traduzida nas bancas brasileiras) chega a faturar US$ 15 milhões anuais, salário comparável aos grandes astros do futebol mundial.
Sonia sentiu na pele o que é tentar chegar perto das estrelas do mangá. Obstinada em entrevistar Tezuka Ossamu, desenhista que levou para seus personagens as feições ocidentalizadas, principalmente os olhos grandes e redondos. "Foram meses de cartas e faxes até conseguir uma resposta", conta a autora. "Quando marquei a conversa, tive de enfrentar antes um comitê de pessoas querendo saber quais seriam as perguntas." No final das contas, eles se tornaram bons amigos. Quando o artista morreu, em 1987, Sonia foi a única ocidental convidada para o funeral.
Sendo uma indústria tão poderosa e com tamanho raio de ação, por que os mangás não fazem tanto sucesso no Ocidente? Para Sonia, é possível ler mangás, mas para compreendê-los é preciso entender certos códigos estritamente ligados à cultura japonesa. "As histórias são repletas de elementos simbólicos e de grande variedade de convenções, todas expressas não-verbalmente; estabelecem uma comunicação muito íntima entre o artista e o leitor japonês."
Duas leituras podem ser feitas dessa singular forma de arte: como forma de entretenimento e representação de uma cultura. Vista por este último aspecto, torna-se uma maneira extremamente agradável de conhecer a cultura de um povo que se ergueu das cinzas, tal qual a Fênix.


