Livro mostra imagens da vida de Clarice Lispector
PUBLICAÇÃO
domingo, 13 de abril de 2008
Ubiratan Brasil<br> Agência Estado 
Uma curiosa contradição parece marcar a trajetória da escritora Clarice Lispector (1920-1977) - se, por um lado, se notabilizou pelo modo anticonvencional de organizar uma narrativa, valendo-se de uma escrita intimista, em que ''as personagens não são seres excepcionais, antes são pessoas comuns, vivendo em um mundo, por assim dizer, mágico; mas de uma magia diferente, clariciana, feita de enigmas e perplexidades - uma magia nascida da exacerbação da palavra'', no entender do poeta Ferreira Gullar; por outro, essa mulher reservada, em constante desajuste com o mundo, deixou-se fotografar (e muito) ao longo de sua vida, garantindo um maravilhoso rastro de imagens que, se não traduzem perfeitamente seu estado de espírito naquele momento, ajudam a mapear muitos de seus passos.
É justamente apresentar a reconstituição dessa trajetória a missão do livro ''Clarice Fotobiografia'', que a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo e a Edusp lançam em parceria (656 páginas). Organizada em ordem cronológica por Nádia Battella Gotlib, professora da USP e reconhecida como uma das maiores especialistas na obra de Clarice Lispector, a obra traz cerca de 800 imagens e oferece um painel visual da vida e obra da escritora em função dos lugares habitados ou percorridos por ela. O livro será lançado amanhã.
Nascida em Tchechelnik, Ucrânia, Clarice chegou ao Brasil com apenas 2 anos, acompanhada dos pais e duas irmãs, fugindo da guerra civil que assolava seu país. A família passou por Maceió e Recife até se fixar no Rio de Janeiro. Entre 1943 e 1959, período em que esteve casada com o diplomata Maury Gurgel Valente, a escritora o acompanhou em suas missões, vivendo em lugares tão distintos como Belém do Pará, Nápoles (Itália), Berna (Suíça), Torquay (Inglaterra) e Chevy Chase, localidade próxima de Washington (EUA).
''As 800 imagens (grande parte ainda inédita) registram momentos desse percurso de vida acidentado, marcado por sucessivos deslocamentos, desde a viagem de exílio da família, quando nasce a filha caçula, Clarice, que parece continuar sempre à procura de um lugar, com a sensação de 'não pertencer' a lugar nenhum'', afirma Nádia, na apresentação do livro.
As viagens ao lado do marido nem sempre foram proveitosas. Vivendo em uma Europa já desgastada pela 2 Guerra Mundial, cujo final se aproximava, Clarice e Maury foram obrigados a viver em hotéis e consulados brasileiros durante muitos meses. A impossibilidade de montar sua própria residência e, principalmente, o fato de viver longe das irmãs, com quem manteve uma extremada relação de amor e ternura, fizeram com que Clarice sofresse, prejudicando o próprio trabalho da escrita.
Mesmo assim, ela estabeleceu novos parâmetros para a literatura brasileira. Especialmente na relação tempo e espaço. Ainda que colaborasse para jornais e revistas, meios de comunicação que se pautam exclusivamente pela realidade, a escritora utilizou as páginas de imprensa também para suas reflexões. ''Sua produção é, a certa altura, chamada por ela mesma de 'pulsações', e está pautada pelo questionamento de valores, desconstrução de regras e certezas, movida pelo desejo dramático de narrar aquilo que, no fundo, constata ser inenarrável'', observa Nádia Gotlib.
A profusão de fotos não apenas revela a bela face de uma mulher, mas complementa a obra única de um escritora notável que soube, como poucos, mergulhar nos mistérios da alma humana.


