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Livro mostra futuro como abstração catastrófica após a pandemia

Em seu novo romance, “O Último Gozo do Mundo”, Bernardo Carvalho imagina o futuro do país após a pandemia do coronavírus

Marcos Losnak
Marcos Losnak

“Na falta de imunidade ao vírus, mais de um terço da população tornou-se imune à realidade.”

Esta frase pode ser considerada o argumento síntese de “O Último Gozo do Mundo”, do novo livro do escritor carioca Bernardo Carvalho lançado pela editora Companhia das Letras. Trata-se de uma das primeiras obras de um autor da literatura brasileira contemporânea a mergulhar completamente de cabeça, tronco e membros em um Brasil abalado pela pandemia do covid-19. 


Olhando a partir da ótica de um futuro pós-pandemia, a narrativa de “O Último Gozo do Mundo” olha para o passado e descreve o confuso movimento das pessoas que tentavam se imunizar contra a realidade, não contra o vírus. E nesse movimento, criaram um país paralelo com um conceito de verdade igualmente paralelo e ficcional.

 

Autor mostra a necessidade que as pessoas têm de criar uma narrativa que molde a realidade segundo o que elas pensam
Autor mostra a necessidade que as pessoas têm de criar uma narrativa que molde a realidade segundo o que elas pensam | Divulgação
 


O romance narra a trajetória de uma socióloga que, durante a pandemia, assiste seu casamento ruir completamente. No meio da pandemia também se vê diante de uma gravidez fruto de uma relação fortuita e aleatória. Obra do acaso, a criança cresce sem pai num mundo sem perspectivas.


Superada a pandemia, a socióloga, na companhia do filho, empreende uma longa viagem em busca do desconhecido pai da criança. Para isso recorre ao que muita gente passa a recorrer: encontrar alguém que consiga enxergar o futuro num momento do país onde ninguém consegue enxergar nada além do presente.


Ela parte em busca de um messias que não possui passado, um sujeito que possui o dom de ver o futuro e se tornou oráculo para os sobreviventes da pandemia. Um sujeito que recebeu o dom do vírus após ser hospitalizado com covid-19 e entubado numa UTI. Após ressurgir do coma, retorna à vida sem nenhuma memória do passado. Sem nenhuma lembrança da pandemia. Como tábula rasa, possui apenas a messiânica memória do futuro.


Em o “Último Gozo do Mundo”, Bernardo Carvalho apresenta uma narrativa completamente fragmentária. Vozes e histórias paralelas abrem caminho em diferentes direções. O autor não pretende abarcar as múltiplas facetas das consequências da pandemia, mas caminha em direção a abordagens sempre abertas que nunca se fecham aos olhos do leitor.


A obra pode ser descrita como uma alegoria sobre o processo das pessoas caminharem, deliberadamente, para se tornarem imunes à realidade, construindo uma realidade paralela para o país e para si mesmas. Uma construção que passa, necessariamente, pela necessidade de uma narrativa que molde o mundo real segundo a própria imagem e semelhança.


Em vários momentos o narrador aponta a morte como política de governo: “É sabido que a morte como condição estruturante da política resulta de falta de legitimidade ou competência. Mas essa era apenas uma aparente disfunção. O país conspirava contra si mesmo. É possível que tivesse conspirado contra si mesmo desde sempre e que a doença fosse seu coração. O que o governo afinal representava às claras era uma sociedade consagrada a espoliar-se até a morte.”


As histórias que se cruzam em “O Último Gozo do Mundo” apresentam um país onde a morte era um projeto para o futuro da nação. Mas quando o futuro chega, a promessa não se cumpre, o projeto afunda por si mesmo. Uma visão catastrófica de um futuro próximo: “O futuro era uma abstração obscena.”


Nesse futuro pós-pandêmico, as redes sociais passam a ser encaradas como instrumentos da realidade ilusória: “Era curioso que o mesmo meio que nada esquece, de onde nada se apaga, fosse responsável pela impressão de que tudo dependesse dele. Como se nada pudesse precedê-lo, como se a rede tivesse roubado o passado, a realidade e a natureza.”


E mais: “O passado reconfigurado não mais pela memória, mas pela soberba voluntariosa da simultaneidade. Era o que as mídias sociais e o confinamento tinham em comum. E o que tornava obsoleta a consciência crítica. O tempo tinha sido confinado. O presente era arquivo. A história estava suspensa, transformara-se em fábula. Não havia outra possibilidade narrativa, o que permitia as versões mais diversas, conflitantes e simultâneas, mas não a contradição. As conexões tinham sido abolidas. Não era só a verdade que deixava de existir. O que não se encontrava na rede tampouco tinha direito à existência. Não havia ação, história ou obra fora dali. Não havia consciência exterior. A rede já vinha substituindo a consciência coletiva antes da quarentena. O confinamento coroou esse processo. As ações já não tinham consequência se não fossem vistas e compartilhadas em rede. E as consequências estavam circunscritas a correspondências, ao compartilhamento interno das chamadas bolhas, o que só contribuía para tornar mais absurdo, perturbador e paralisante o rastro de morte deixado por um agente não programado, invisível e exterior, como um vírus.”   


Autor de 13 outros romances, Bernardo Carvalho escreveu “O Último Gozo do Mundo” totalmente durante o isolamento da pandemia. O texto nasceu como um possível roteiro de cinema, depois passou para uma novela até chegar à forma publicada como romance.     

 

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Serviço:

“O Último Gozo do Mundo”

Autor – Bernardo Carvalho

Editora – Companhia das Letras

Páginas – 144

Quanto – R$ 49,90 (papel) e R$ 29,90 (e-book)

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