“Como a minha, toda família tem, se recuarmos bastante no tempo, uma infinidade de deslocamentos em sua gênese. Toda a humanidade é feita desse movimento incessante, e só existe tal como a conhecemos graças a esses deslocamentos. No fundo, se recuarmos o bastante no tempo, vamos concluir o que há de mais óbvio: que cada um de nó fez o seu caminho, mas que somos todos descendentes de um mesmo ancestral absoluto e longínquo, e que, por mais diferentes que sejamos, somos todos parte de uma mesma família.”

Essa frase de uma das personagens do novo romance do escritor paulista Julián Fuks, “A Ocupação”, oferece uma noção da capacidade que um país possui em acolher seus próprios habitantes ou habitantes de outros lugares. E sua conclusão segue em frente: “Se somos parte de uma mesma família, toda violência contra o outro é uma violência contra nós mesmos, fadada a destruir a um só tempo cada um de nós e a humanidade inteira.”

“A Ocupação” é o quinto livro de Fuks. O primeiro após a repercussão de “A Resistência” (2015), obra que recebeu o Prêmio Jabuti de 2016, o Prêmio Saramago do mesmo ano, e finalista do Prêmio Oceanos. No novo romance o autor retoma Sebastián, personagem narrador de “A Resistência”, agora envolvido em outro contexto e outros entendimentos.

No livro,  Julián Fuks flerta com a metaliteratura e apresenta uma carta dele, como autor, endereçada ao escritor Mia Couto
No livro, Julián Fuks flerta com a metaliteratura e apresenta uma carta dele, como autor, endereçada ao escritor Mia Couto | Foto: Divulgação

Em “A Ocupação”, Sebastián vive atordoado por três situações que o impulsionam para percepções que caminham para uma possível compreensão de futuro. Vive o medo de perder o pai hospitalizado com uma doença severa. Ao mesmo tempo vive a expectativa da gravidez da esposa. Esse esquema de morte e vida envolvendo as duas faces da paternidade pode parecer óbvio, mas o autor possui a capacidade de fugir da obviedade e enfrentar questões mais profundas e surpreendentes.

Enquanto caminha entre as sensações de vida e de morte, visita regularmente edifícios no centro da cidade de São Paulo ocupados por moradores sem-teto. Nessas visitas procura ouvir a história de cada um dos moradores com a intenção de escrever um livro. Entre as histórias o destaque recai sobre um sírio que deixou seu país natal por questões políticas, um boliviano de abandonou seu país por questões econômicas, e uma haitiana que deixou seu país por questões sociais. Embora as questões sejam distintas, a falta de um teto real ou simbólico, possuem uma mesma origem: a política.

No interior da narrativa de “A Ocupação” Julián Fuks flerta com a metaliteratura. Apresenta uma carta dele, como autor, endereçada a outro escritor, o moçambicano Mia Couto. Na carta fala sobre os anseios e as inquietações que possui sobre o novo livro que está escrevendo, “A Ocupação”. Sente-se impelido a refletir sobre o seguinte ensinamento de Mia Couto: “Nenhum homem é um homem se não for a humanidade inteira”.

Apresenta também a carta de resposta de Mia Couto, onde o escritor potencializa a dimensão do livro que está sendo escrito por Fuks: “A literatura deve afirmar sua própria soberania e inventar aves que, por sua vez, inventam um outro céu. E o escritor deve proclamar que, mesmo cercado e ameaçado, ele atravessa caminhos que não são manchados pela miséria moral e a imbecilidade dos mandantes do dia.”

Julián Fuks tinha nas mãos uma temática necessária aos dias atuais que poderia render centenas e centenas de páginas. Mas optou por um livro extremamente sucinto onde cada frase parece ter sido pensada dentro de um contexto que envolve uma percepção pautada pela acuidade luminosa.

Serviço:

“A Ocupação”

Autor – Julián Fuks

Editora – Companhia das Letras

Páginas – 134

Quanto – R$ 44,90

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